ENTREVISTA - Bial, um homem versátil
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sábado, 02 de julho de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba Ao ser convidado para escrever a biografia de Roberto Marinho, uma das principais entidades da comunicação brasileira, o jornalista e apresentador Pedro Bial decidiu: ''vou fazer uma grande reportagem''. Mesmo com os vínculos com a Rede Globo, empresa na qual trabalha há 25 anos, Bial garante que não houve intervenções no processo. E foi como jornalista que ele pesquisou centenas de documentos e cartas pessoais deixadas por Marinho, um homem que sabia que iria ser biogrado e durante sua vida guardou um vasto material que permitiria que o livro fosse escrito.
Bial levou pouco mais de seis meses para terminar a obra. Agora, o apresentador do Fantástico se dedica ao périplo de lançamento do livro. Semana passada, ele participou de um bate-papo nas Livrarias Curitiba do ParkShopping Barigui, em Curitiba, seguido de uma noite de autógrafos. Antes, porém, conversou com a Folha2 sobre o processo do livro, lançado pela Jorge Zahar Editor, e sobre seus projetos pessoais. A seguir os principais trechos da entrevista.
Como surgiu a idéia de escrever o livro ''Roberto Marinho'' ?
O convite partiu dos filhos do Roberto Marinho e a sugestão do meu nome para fazer o perfil biográfico que marcasse o centenário de nascimento do Roberto Marinho foi de Luiz Hernandez, diretor da Central Globo de Comunicação.
E no decorrer desse processo, você sofreu algum tipo de recomendação ou censura?
Logo na primeira entrevista com os três filhos do Doutor Roberto eu falei: ''Eu vou fazer esse livro como eu fiz todas as reportagens nessa casa: sem restrições. Nunca ninguém me disse como eu deveria fazer. Eu sempre tive toda a liberdade para contar as histórias da maneira que eu as apurasse e achasse correto e é assim que eu pretendo escrever o livro''. Eles me responderam que eu poderia tratar de todos os assuntos, desde que fosse com naturalidade. Eu achei esse conceito muito divertido. Depois eu entendi porque ele foi usado. O Roberto Marinho usava muito essa expressão para desarmar situações potencialmente conflituosas. E há vários episódios do livro que demonstram isso.
Como você organizou sua rotina para escrever o livro?
O convite aconteceu no final de outubro de 2003 e eu comecei a fazer a pesquisa no final de novembro daquele ano. Aí teve Big Brother no início de 2004. Eu fazia o programa e concomitantemente fazia a pesquisa. Ele era um homem que sabia que ia ser biografado, então guardou cada pedacinho de papel, cada bilhete, cada carta, desde o século 19. Na verdade, meu problema foi o excesso de material e o pouco tempo que eu tinha pra escrever. Eu comecei a escrever só em abril e em cerca de seis meses eu terminei. Mas quando chegou na metade do livro eu achei por bem que o João Roberto (um dos filhos de Roberto Marinho) lesse o livro para ver o caminho que eu estava seguindo. Ele gostou tanto que disse: ''Vamos esquecer essa obrigação de ter o livro pronto até a data de nascimento do meu pai''. Mas eu já tinha introjetado um deadline e eu precisava terminar o livro. Eu estava ''possuído''. Não conseguia dormir. Tinha a última frase ecoando na minha cabeça, mas não imaginava como ia chegar lá. No fim das contas eu cheguei e é um produto do qual me orgulho.
Você fala desse compromisso do jornalismo, do jornalista, com o deadline, por exemplo. E como você concilia esse compromisso com suas outras atribuições, como apresentando do Big Brother, por exemplo?
Existe o Pedro Bial jornalista, mas existe o Pedro Bial apresentador de televisão. E eu sempre trabalhei em televisão. Não só em jornalismo, mas apresentando festivais e outros programas. É uma faceta. Talvez por eu ter começado bem debaixo e ter passado por todas as etapas do processo de feitura de televisão eu fui adquirindo uma certa versatilidade que me permite bater o escanteio e cabecear. Mas são atribuições, ações e delegações diferentes e específicas. O único compromisso que eu tenho como apresentador do BBB é com a diversão, com o entretenimento e é um programa que não se pretende nada além disso. Já como jornalista, meu compromisso é com a informação passada de maneira clara, atraente. Mas eu acho que não há uma esquizofrenia. É claro que tem que ser uma coisa de cada vez. Misturar as duas coisas não dá certo. Quando eu estou apresentando o BBB eu brinco de Chacrinha, de Fausto Silva. Pode até ser que certas técnicas do jornalismo me auxiliem para ouvir aquelas pessoas que estão participando, mas é apenas isso. O Pedro Bial jornalista não entra em campo no BBB.
E você já tem outro projeto de livro ou programa?
Já estou trabalhando em um novo livro. Tem dois nomes provisórios meio sem graça, mas vou falar o que gosto mais: ''Honrarás teus filhos''. É uma história sobre pais e filhos. Eu costumo brincar que eu escrevi um livro sobre um pai, o Dr. Roberto Marinho e o pai dele. Agora eu vou escrever uma história sobre meu pai. É claro que não é uma história só sobre ele, partindo da história factual. É bem típica do século 20 e aborda essa nova figura paterna que surge com a nova família. Houve uma democratização das relações familiares. Eu tenho muita pena do meu pai que não conseguiu fazer um carinho em mim. Os pais de hoje são muito mais presentes e ganharam isso com a emanciapação feminina. O livro vai ser uma reflexão sobre isso.
É autobiográfico?
Sim. Tem muito de autobiográfico, mas tem muito de ficção também. Não vou ter nenhum compromisso com o factual. Eu fui à cidade onde meu pai nasceu, depois do último BBB. (Por isso ele estava na Polônia quando o Papa morreu e acabou sendo designado para fazer a cobertura, em Roma) para pesquisar algumas coisas. Eu parto de algumas coisa factuais, mas estou gostando mais de exercitar a ficção que é tão difícil para os jornalistas.


