ENTREVISTA - Basbaum defende a presença de artistas nas universidades
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sexta-feira, 14 de novembro de 2003
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Nome consagrado da arte contemporânea, o artista plástico, escritor e crítico Ricardo Basbaum esteve em Londrina, nesta semana, para participar da IX Semana de Arte de Londrina, que acontece até o dia 30, na Casa de Cultura. Dentro da temática ''A pesquisa em/sobre arte'', diversos eventos paralalelos estão sendo realizados, entre eles, aconteceu ontem a mesa-redonda ''Pesquisa, crítica e mercado:implicações éticas e estéticas'', da qual Basbaum participou juntamente com Maria Lúcia Bueno. Basbaum integrou diversas exposições, entre elas, ''Como Vai Você, Geração 80?'', no Rio de Janeiro, em 1984, e a 25 Bienal Internacional da Arte, em São Paulo, em 2001. Desde 1989 desenvolve o projeto ''Novas Bases para a Personalidade'' onde através de objetos, textos, desenhos e intervenções busca uma conexão direta com o espectador.
Um dos assuntos destacados por Basbaum é a necessidade de se repensar o lugar do artista nos meios acadêmicos. Segundo ele, que é professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), ainda é comum o trabalho do artista não ser considerado como ''pesquisa acadêmica'' que exige investimentos como em outras áreas, ''como física ou química''. ''Isso não está muito bem resolvido no Brasil e é preciso valorizar o trabalho do artista, que também exige pesquisa e dedicação'', disse.
Basbaum também defende que os espaços nas universidades sejam mais abertos, proporcionando maior diálogo e integração com o circuito-artístico atual. ''Precisamos desacademizar a universidade. Ela não pode ser uma academia fechada...isso não funciona quando se trabalha com arte'', destacou. O grupo de pesquisa ''Corpos Informáticos'', que trabalha a performance e a tecnlogia, na Universidade de Brasília (UnB), sob a coordenação da artista plástica Bia Medeiros, e a implementação da programação da galeria de artes da UERJ, foram considerados bons exemplos de inovação no meio acadêmico.
Dentro dessa idéia, ele também criticou a exigência de que os professores de arte tenham curso superior e pós-gradução. ''Tem artistas excelentes, sem esses requisitos, que poderiam estar dando grandes contribuições dentro das universidades'', ressaltou. Enquanto isso não acontece, Basbaum aguarda para hoje o resultado da sua inscrição ao doutorado da Universidade de São Paulo (USP). O projeto que pretende desenvolver é sobre um trabalho que vem fazendo desde 1994. Um objeto de aço esmaltado, na forma de um contâiner, que foi sendo repassado para 30 pessoas com o objetivo de que eles fizessem uma experiência artística a partir dele. Elas tinham total liberadade para criar em cima da obra, que apresentava uma marca ''virótica'' do artista, e deveriam enviar para Basbaum a documentação com registro dos resultados. ''Um dos pontos da pesquisa é investigar a questão da autoria, que nesse caso, passou a ser uma autoria coletiva'', informou.
Basbaum também falou sobre a inserção do artista e da arte no Brasil, o que, na sua opinião, não é natural, exigindo que o profissional tenha que utilizar-se de ''forças limites'', encarando o seu trabalho como um autônomo . ''Fora do Brasil, o campo de trabalho é mais sólido, mais institucionalizado, com espaços mais concretos.''
Sobre a mistura de linguagens cada vez mais presente na arte moderna, Basbaum diz que esse processo é benéfico para que haja uma ''ampliação de campo'', segundo termo utilizado pela historiadora e crítica de arte norte-americana, Rosalind Krauss. Por outro lado, ele critica a má distribuição do capital simbólico, que atualmente está restrito à elite paulistana. ''A maior parte das pessoas fica de fora do circuito artístico. Além disso, não temos investimentos do estudo da arte no processo educacional, por ser um saber muito especializado e a maioria fica sem informações'', afirmou.
''Acredito que a arte tem o papel de desnaturalizar hábitos. Ela criar desafios, produz pensamentos. Ela não é cômoda. Produz vida e contamina todos os campos do saber. E as pessoas precisam se disponibilizar a perceber isso'', argumentou.


