ENTREVISTA - Autonomia total
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de julho de 2003
Renata Petrocelli<br> TV Press 
Regina Casé nunca foi de se contentar com um script pronto. A atriz tem orgulho de dizer que sempre ''colocou o dedo'' em seus trabalhos na tevê. Agora, mais do que nunca, está do jeito que sempre quis. Defensora da produção independente e sócia da produtora Pindorama, Regina tem controle total sobre o quadro que comanda no ''Fantástico'' e sobre o programa ''Um Pé de Quê?'', exibido no Canal Futura. Além disso, conseguiu implantar, ao lado do diretor Guel Arraes e do antropólogo Hermano Vianna, o projeto ''Brasil Total'', que propõe a produção regional de matérias inspiradas no extinto ''Brasil Legal''. ''É um processo lento. Queremos desenvolver uma base para que, no futuro, a grade de programação seja preenchida de outra maneira'', defende.
Mesmo com tanto ímpeto autoral, Regina garante que o bom mesmo é trabalhar como convidada. Como no seriado ''Cidade dos Homens'', produzido pela O2 Filmes, de Fernando Meirelles. ''É muito bom não ter de ser a patroa. É uma sensação quase de irresponsabilidade'', brinca, irreverente. No ano passado, ''Uólace e João Vítor'', episódio que ela dirigiu, foi o pico de audiência do seriado. Este ano, Regina pretende investir nos mesmos personagens. ''Não vai ser uma continuação, mas um 'crescendo' das semelhanças entre os dois'', adianta.
Você acredita que o futuro da programação da tevê está na produção independente?
Eu e o Guel batalhamos isso há tempos. É uma grande inovação, principalmente porque traz muita gente nova. Gente que jamais aceitaria ter contrato com a emissora, mas que topa fazer uns projetos especiais. Não é só um modo de produção novo, mas uma novidade incrível de conteúdo, com uma ventilação que quem está direto dentro da emissora não conseguiria trazer. Como não é um trabalho em série, a gente consegue fazer algo bem mais elaborado. E o espaço está crescendo. Entrego a fita do meu quadro no ''Fantástico'' à Globo na sexta-feira. Até um tempo atrás, isso parecia impossível.
De onde vem a inspiração para os temas abordados no quadro?
A idéia é botar a boca no trombone com coisas que dependam exclusivamente de cada um para mudar. Reclamar dos outros é muito fácil. O que a gente quer mostrar é que está ao alcance de cada cidadão desenvolver a cordialidade, a vontade que todo mundo tem de viver melhor. E a vantagem é poder migrar entre a ficção e a realidade muito facilmente.
O que você está preparando para seu próximo episódio de ''Cidade dos Homens''?
Quero continuar investindo na linha de ''Uólace e João Vítor''. Ao contrário dos outros episódios, o nosso não mostrava as diferenças, mas as semelhanças entre o menino da favela e o de classe média. Por isso, escolhi ambientar a nova história na praia, o lugar onde existem menos sinais das diferenças sociais. O objeto de desejo dos garotos, desta vez, é uma prancha de surfe. E eles vão se encontrar. A Kátia Lund já está pensando na idéia de trabalhar as possibilidades e impossibilidades de uma amizade entre os dois no episódio dela.
Como funciona esta simbiose entre o trabalho dos diferentes diretores do seriado?
Eu fico querendo dar palpite nas histórias de todo mundo. Quando soube que o Fernando iria ambientar o episódio dele num baile funk, já fiquei animadíssima, até apresentei o DJ Marlboro a ele. Eu sempre frequentei baile funk, o ''Brasil Legal'' foi o primeiro programa a mostrar o baile na tevê, então fico achando que todos os meus anseios têm de caber no seriado.
O que você está achando do resultado do ''Brasil Total'', que já tem matérias exibidas no ''Fantástico'' e no ''Mais Você''?
O projeto é de extrema importância, embora não tenha uma visibilidade tão grande. Quando se vê uma matéria daquelas, a virtude é que foi totalmente produzida em seu local de origem. Falando sinceramente, não diria que sejam melhores que qualquer uma das matérias do ''Brasil Legal''. Mas foram escritas, roteirizadas, produzidas e dirigidas regionalmente. E foram picos de audiência, o que prova que as pessoas querem realmente se ver na tevê.
Ao optar por produções independentes, Regina Casé pôde se dar ao luxo de opinar até mesmo no roteiro dos programas em que atua


