ENTREVISTA - Atração incontrolável
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de abril de 2005
Renata Petrocelli<br>TV Press 
Christiane Torloni estava em meio aos ensaios da peça 'Mulheres Por Um Fio', montada no final do ano passado, em São Paulo, quando recebeu o convite para interpretar Haydée, de 'América'. Depois disso, não conseguiu mais pensar em outra coisa. Mergulhou em leituras e conversas com médicos, psicólogos e psiquiatras. Resultado: adiou para este ano o projeto de rodar o Brasil com a peça. A ''revolução'' que Haydée provocou em seus planos é, segundo Christiane, a melhor definição da personagem. ''A Haydée não permite um não, já chega dando um pé na porta. Ela alvoroçou minha vida. Eu dizia: 'Calma, calma, espera só um instantinho'. Mas foi em vão'', diverte-se.
Não demorou para a atriz se convencer de que tinha nas mãos um dos temas mais importantes de 'América'. ''Há muito preconceito em torno da cleptomania. Soube de pacientes que só revelaram o problema ao terapeuta depois de cinco anos de tratamento'', destaca.
Em que a Haydée apaixona você?
A Haydée é uma personagem que dá um susto em qualquer ator. Ela não admite um não, chega dando um pé na porta. É uma daquelas pessoas que têm um defeito na alma, uma falha trágica, como se costuma dizer. Ela é bem-nascida, teve todas as oportunidades, mas é vítima de uma força que sempre a vence. É uma doença. Eu tenho feito uma analogia com um alcoólatra, ou com um dependente químico, porque, graças a Deus, hoje em dia já se sabe que são doentes. Já fica claro que a pessoa não está cheirando uma fileira porque gosta. Já o cleptomaníaco é um doente que não admite estar doente, que guarda um segredo terrível. Afinal, até o cara provar que não rouba porque quer...
Neste sentido, como você vê a importância de se abordar este tema numa novela?
Acho fundamental. Talvez a Glória esteja fazendo com esta personagem um dos maiores merchandisings sociais da obra dela. Isso eu tenho ouvido de diversos médicos, e um deles foi o Dráuzio Varella. A televisão pode ajudar as pessoas a se identificarem, a se perdoarem e a procurarem ajuda. Quem sabe não começam a aparecer grupos de apoio, como os Alcoólatras Anônimos, os Narcóticos Anônimos, e as pessoas não começam a se curar pela solidariedade?
O que mais impressionou você no processo de composição da Haydée?
Foi justamente o preconceito que há em torno do tema. Li uns depoimentos assustadores. Às vezes, há pacientes que estão entrando no quinto ano de terapia e de repente revelam que são cleptomaníacos. No quinto ano! E o médico ali, tratando de quinhentas outras coisas... É um segredo muito grande. Primeiro, até para a própria pessoa. Ela não sabe se aquilo é uma perversão ou uma questão de caráter e demora a perceber que é a primeira vítima daquilo tudo. É um assunto ainda muito pouco estudado. Há uma nuvem sobre ele. Por isso é tão importante falar disso.
Você teve a preocupação em aproximar a Haydée do público?
Eu procuro nunca justificar minhas personagens. Se eu tiver de pegar uma arma e dar três tiros numa pessoa em cena, minha personagem pode ser a heroína da história, mas vou dar os três tiros. O público é quem deve julgar ou não. É a tal coisa: se você faz uma coisa tão fechada e pronta, para que vai querer público? Tudo tem que passar por ele. Neste sentido, tenho sido muito feliz, porque o público de alguma maneira sempre viajou junto comigo, nunca bateu o martelo para julgar uma personagem.
Aos 30 anos de carreira, o que provoca você profissionalmente hoje em dia?
Todos os dias penso na bênção que é esta carreira. O que ela dá para as pessoas? O que ela produz? Você não senta no trabalho de um ator, não liga para ninguém nos Estados Unidos, não alimenta o corpo, mas alimenta a alma. Eu só sou útil quando consolo alguém, quando alguém ri com uma cena minha, chora ou se emociona. As crianças excepcionais têm uma conexão extraordinária comigo. Eu sei porque as mães as levam para assistir aos meus espetáculos. Recebi na minha casa uma carta de uma menina da Sibéria. Ela tem vinte e poucos anos, tem uma deficiência e está conectada comigo desde a primeira novela minha que passou lá, acho que foi 'Torre de Babel'. Ela dizia que eu a inspirava a levantar todos os dias para ir à escola. O que eu posso querer além disso? Ou de um rapaz soropositivo que foi ao teatro e veio falar comigo no camarim: ''Por uma hora e meia, eu esqueci que estou morrendo''.


