Flávia Alessandra aguardava ansiosa o retorno à tevê. Tanto que não pensou duas vezes na hora de aceitar o convite para ''encarnar'' a cruel Cristina de ''Alma Gêmea'', da Globo. Aos 31 anos de idade e 16 de carreira na televisão, estava afastada da telinha desde ''O Beijo do Vampiro'', de 2002, e já sentia falta do corre-corre das gravações. ''Há algum tempo pedia para entrar numa comédia ou fazer uma vilã. E isso acabou acontecendo'', confessa, orgulhosa. Apesar da impressionante frieza da personagem, a atriz ressalta que Cristina não é uma vilã comum, que vive apenas para fazer o mal. Pelo contrário. ''Ela também sabe ser amiga. Ainda guarda uma certa dose de bondade, devidamente escondida. Não é uma vilã o tempo todo'', avalia.
Mas a tal ''bondade'' da pérfida personagem parece que está realmente muito bem escondida. Tanto que, há cerca de duas semanas, a atriz estava no playground do prédio de uma amiga quando uma pedra de gelo se espatifou bem próximo, enquanto alguém gritava o nome de Cristina. ''A sorte foi que não nos acertou, ainda mais porque minha amiga estava com a filhinha dela'', conta. Assustada com inusitada ''crítica'', Flávia espera que os telespectadores não confundam realidade com ficção. Ainda mais quando a novela está apenas começando. ''Ela ainda nem aprontou tanto. Imagina quando ela realmente passar a colocar em prática todas as sua maldades...'', espanta-se.
Enquanto a dissimulada Cristina não amplia ainda mais seu espectro de malvadezas, Flávia Alessandra revela que, sempre que perde a ''essência'' da personagem, costuma rever trechos de filmes protagonizados pelas atrizes Bette Davis e Gloria Swanson. ''Elas interpretaram personagens que oscilavam entre a vilania e a loucura. E faziam com maestria'', derrama-se a mãe de Giulia, de cinco anos, fruto do casamento com o ator e diretor Marcos Paulo, de quem a atriz se separou em 2002.
É mais atraente interpretar mocinhos ou vilões?
Acho que o mais importante é fazer bons papéis, independentemente de ser uma mocinha ou uma vilã. Se a personagem é interessante, tem uma história legal, fica tudo mais fácil. O que me importa é fazer uma personagem que tenha um bom ''recheio'' para ser explorado. Mas as vilãs, geralmente, dão uma liberdade maior para interpretar, pois a gente pode utilizar todas as nuances que elas apresentam. Dá para brincar muito mais. A minha primeira vilã, a Lívia de ''Meu Bem Querer'', nem era uma ''vilãzona'' realmente. Ela era, antes de tudo, uma antagonista, que, por consequência da trama, foi ganhando mais espaço e se tornando uma vilã mais apurada. Já a Cristina é uma vilã nata, que faz tudo para se dar bem, mas que guarda algumas surpresas, como o fato de também ter um resquício de bondade.
O que você acha que faz com que as pessoas fiquem tão furiosas com a Cristina?
Ela é um leque de sensações. É uma vilã que não é 100% vilã o tempo todo. Ela não é apenas uma pessoa seca, amargurada ou mal-humorada, que vive fazendo maldades. A Cristina também consegue ser sensível, engraçada e, quando tem que ser amiga, ela é. A personagem tem de tudo um pouco, são várias as facetas. Isso é o mais bacana. Está sendo uma delícia interpretá-la, porque posso explorar essas diversas nuances e sentimentos. É muito bom poder oscilar entre a vilania e o resto de bondade que ela também tem.
Durante o tempo que foi casada com o diretor Marcos Paulo, você fez algumas novelas dirigidas por ele. Chegou a ouvir comentários de que estava em determinada produção por ser ''a mulher do diretor''?
Acho que todo mundo tem um pouco de Cristina dentro de si. Por mais que a gente tente superar, sempre resta uma pontinha de maldade. É claro que comentavam que eu estava fazendo novela por causa dele. Mas o mais engraçado é que essas mesmas pessoas que falavam isso pelas costas não se lembravam que eu já estava fazendo televisão antes de me casar com ele. Já havia iniciado minha carreira, viemos a nos conhecer algum tempo depois. Ficamos juntos enquanto ele ainda era ator também.
Você disse que todas as pessoas têm um pouco de Cristina dentro de si. E você, qual o seu ponto em comum com ela?
Não deixo aflorar esse meu lado mau. Consigo evitar que a maldade faça parte da minha vida. Não tenho nada mesmo a ver com a Cristina. E isso é que é o mais legal. É muito mais interessante fazer personagens distantes da nossa realidade e que não tenham pontos semelhantes com a gente. É um exercício a mais, é estimulante e dá muita satisfação em fazer. Ela é completamente diferente de mim e está sempre à minha frente, me encarando. É uma outra ''persona'' mesmo: tem gestual e pensamentos próprios, além de uma maneira de agir única, que difere da minha por completo.
Sua carreira é marcada por personagens na televisão. Não sente falta de fazer teatro e cinema?
É claro que sinto, porque fiz poucos trabalhos nessas duas áreas. No palco, atuei mais em infantis. Mas também participei de dois espetáculos grandiosos, como a ''Paixão de Cristo'', em 2002, e o ''Auto de Natal'', em dezembro do ano passado. Foram experiências únicas, mas que não têm aquele contato muito direto com a platéia como nos teatros convencionais. Já em cinema, vou estrear meu primeiro longa, ''No Meio da Rua'', do Antonio Carlos Fontoura, até o final do ano. Espero receber mais convites e assim que terminar de gravar a novela, quero voltar à telona. Tive de recusar uma proposta, pois não dava para conciliar as gravações de ''Alma Gêmea'' com o dia-a-dia num ''set'' de cinema.

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