ENTREVISTA - As investidas do lobo
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de outubro de 2004
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Curitiba - O lobo está solto e faminto. Esta é a impressão que dá ao encontrar Lobão, 47, em uma passagem de som que antecedeu a um show que fez em Curitiba semana passada, no recém-inaugurado Curitiba Center Art, um ex-bingo que virou casa de shows. Presidente da Associação Brasileira de Controle e Proteção aos Direitos Autorais, Lobão está com a corda toda e animadíssimo com os frutos de uma luta que ele mesmo iniciou há cinco anos.
''Estamos tomando o poder. Criando leis. Chegando e dizendo me dá isso aqui, com licença. Estamos brigando a médio e longo prazo desde 1999. Eu já tinha dito que eles vão cair de quatro aqui e ali. Agora podemos pedir uma auditoria em qualquer disco, até do Roberto Carlos, e se eles estiverem errados podem ser presos por isso. É como se fosse um exame antidoping'', diz, referindo-se à luta contra a pirataria de discos no Brasil, à falta de pagamento dos direitos autorais e contra o monopólio das gravadoras.
Em 1999 Lobão saiu na frente com uma idéia que desbancaria o tal monopólio das gravadoras. Com o lançamento de ''A Vida é Doce'', um disco numerado, comprou, pela primeira vez na história da defesa dos direitos autorais dos artistas brasileiros, uma briga com as gravadoras, vilãs nessa história. Nessa investida, ele teve outra característica irreverente e de defesa: era a primeira vez que um artista com selo independente vendia CDs em bancas de jornal. E foram 100 mil cópias vendidas. Lobão começou a refazer a história de que os músicos seriam reféns para sempre das grandes gravadoras.
Sobre esse episódio ele dispara: ''Abri uma precedência para que houvesse a numeração, que saiu em abril de 2003. Ela demorou 40 anos para sair. Conseguimos também a ISRC (código padrão internacional que age como um identificador básico das gravações fonográficas) que vai rastrear e proteger os discos com seus direitos autorais''.
Foi no ano passado que Lobão papou mais uma. Lançou também em bancas de jornal a revista ''Outra Coisa''. Nesse projeto, uma outra atitude de independência: o lançamento de novos artistas como B. Negão, rapper vocalista do Planet Hemp que resolveu sair em carreira-solo com o disco ''Enxugando o Gelo''.
Mais uma dentro e B. Negão recebeu o prêmio de melhor disco do ano. ''Temos uma revista de 70 páginas que é o maior editorial do Brasil. Estamos lançando em Portugal agora. Vamos fazer um intercâmbio com eles. Ela sai um mês aqui e outro lá''. Fora esse projeto, Lobão anunciou um grande show que ainda não está com data marcada, mas deve acontecer em 2005 no Rio de Janeiro, na Praça da Apoteose. O Festival Independente ainda não tem nome, mas deve virar calendário turístico e vai contar com uma turma que comunga das mesmas idéias que o artista. Dentre as bandas está a curitibana Faichecleres.
Completando um ano agora em novembro, a revista traz uma entrevista exclusiva com o ministro da Cultura, Gilberto Gil. ''Ele se comprometeu com a gente. Disse que vai fazer uma série de mudanças radicais. Será uma entrevista de aniversário e vai cair com uma bomba'', anuncia.
Depois de lançar a revista, Lobão fica entre o lá e cá da política cultural e prepara um novo disco que deve sair em março do ano que vem. ''Será uma espécie de Inferno de Dante do Baixo Leblon, a antimatéria. O nome do disco é 'Canções dentro de uma noite escura' e eu visito vários mortos como Cássia Eller, Cazuza, Júlio Barrozo e pessoas que não estão mortas, mas que deveriam estar também'', brinca. Na parte sobre Cazuza, uma música que Lucinha Araújo, mãe do compositor morto, confiou recentemente a Lobão. ''Ela falou assim: se você não musicar eu vou dar para o Chitãozinho e Xororó. E eu disse: então me dá.''
Sobre a história de cantar fantasmas, Lobão diz que não os enxerga, mas que eles surgem. Anti-religioso por se considerar um cara inteligente, o artista está de bom humor e se diverte ao contar histórias de seus colegas de profissão. Segundo ele, Maria Bethânia, por exemplo, não fala com seus músicos diretamente. Tem um ''cambono'', espécie de intérprete que passa os recados a seus músicos ou ''súditos''. Outra conversa engraçada que surge ao ouvir Lobão é a de como ele se encontra com artistas que considera ''vendidos'' ao mercado fonográfico do ''jabá'' nacional.
Ele fala, na cara dura, que eles são uns babacas. ''Eu caio em cima mesmo. Tripudio. Eles são uns puxa-sacos. São ursinhos carinhosos por natureza e não sabem o que fazer. Eles não têm agressividade. E quem não se dá ao respeito, não vou ser eu quem vai respeitar. Agora, as pessoas que eu respeito, tenho ®MDBO¯®MDNM¯a maior reverência. Mas essas são raríssimas'', diz. Esses respeitados por Lobão são: ''Beth Carvalho, Roberto Frejat e o pessoal do Ira!. Tirando essas pessoas, literalmente mais ninguém''.
As investidas de Lobão contra tudo o que não acredita é uma maneira de viver. Aos 47 anos e surpreendentemente conservadíssimo, ele jura que não tem cuidado algum com sua saúde. ''Não tenho cuidado com nada. Se tivesse seria um homem morto. Se você vive uma vida desnorteada e louca, vai gastar muito menos tempo do que quem vive uma vida regrada. É a Teoria da Relatividade do Einstein. A vida louca te conserva muito mais porque você tá acelerado na velocidade da luz'', ri.


