ENTREVISTA - Artesã das palavras
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de julho de 2004
Renata Petrocelli<br> TV Press 
A primeira vez que ouviu Maria Bethânia dizer que decorava as vírgulas das canções e dos poemas que recitava, Vera Holtz achou graça. Mas passou a entender exatamente o que a cantora dizia ao se deparar com Generosa, sua personagem em ''Cabocla''. Paulista de Tatuí, Vera já está acostumada a tentar atenuar o forte sotaque a cada vez que pega um novo papel. Pela primeira vez, no entanto, teve de incorporar um sotaque diferente do seu, já que a novela é ambientada na Zona da Mata mineira. ''É muito difícil equilibrar um jeito diferente de falar com emoção e verdade cênica. Estou decorando não só as vírgulas, mas os pontos também'', entrega Vera, emendando uma de suas sonoras gargalhadas.
Apesar das diferenças, foi às próprias raízes que a atriz recorreu para compor a personagem. Assim que recebeu o convite para a novela, tratou de organizar um churrasco em família, no qual encontrou tios, tias e primos que ainda vivem em Pereiras, no interior de São Paulo. Lá, ouviu histórias de todo tipo sobre a vida dos pequenos sitiantes do começo do século passado desde o que as pessoas comiam nas principais refeições até a forma como as mulheres produziam sabão. ''Foram conversas muito interessantes. Tenho várias coisas escritas'', conta Vera, reconhecendo que, na hora do ''gravando'', tudo muda de figura. ''Aí, a gente pega tudo isso, joga fora e lembra que está fazendo televisão'', debocha, com o bom humor de sempre.
O que mais atraiu você na Generosa?
Achei bacana ficar mais ou menos no mesmo registro da Santana. Com ela, tinha mergulhado muito profundamente na interpretação. Não conseguiria ir direto para uma coisa mais cômica. Não só por ter ido muito fundo, mas também por achar que a Santana tinha de ecoar um pouco mais. Ela teve um registro social muito grande, foi uma personagem importante para o público. E foi bom pegar logo depois outra personagem forte, com peso, que mexe com a questão do direito à terra. Acho que depois, terminando a Generosa, posso voltar para qualquer tipo de papel, porque esta curva já está estabelecida.
O fato de fazer personagens que podem provocar repercussão social agrada você?
Acho bom quando se consegue fazer a ficção encontrar a realidade. A Santana levou muitas pessoas a procurarem tratamento. Já a Generosa é o retrato da mulher de uma época. Na questão da terra, as mulheres não apitavam nada. Quando o marido pede uma opinião, ela não tem opinião a dar. Fala alguma coisa baseada no que supõe e corre a acender uma vela. É uma personagem instintiva, impulsiva, sem nenhum senso crítico. Acho importante mostrar isso.
Como a Santana, a Generosa também é uma personagem muito sofrida. É difícil emendar dois trabalhos com este peso?
São duas coisas bem diferentes. A Santana me deixava bem caidinha. Chegava em casa nublada, escura. Chegou uma hora em que minha relação com a vida ficou meio monástica. Aqui, estudo muito o texto, deixo tudo prontinho e vou gravar com toda a liberdade. É um clima ótimo, sempre tem uma alegria enorme. A gente passa o dia no campo e não consegue sair de lá estressado.
Você gosta da vida no campo?
Esta é a primeira vez que uma personagem minha mexe com este lado da terra, que eu tenho um pouco, por ser do interior de São Paulo. Mas sempre tive dificuldade de gostar de mato. Agora, estou adorando ficar lá. Acho lindo aquele sítio onde a gente grava, gosto de conviver com cheiro de vaca, com o sol entrando pelas janelas da casa... Estou achando encantador.
Como você vê a relação conturbada da Generosa com a Tina?
Acho uma estupidez ela brigar tanto com aquela filha. Mas esta era a psicologia da época. Na moral dela, se o Tomé pertenceu à irmã, não pode pertencer à Tina, porque seria uma traição. E ela jura que esta filha vai voltar, acha que está escrito assim. É engraçado, não consigo entender esta obsessão por um fantasma. Eu não conheço esta Rosa, só ela conhece. Já até inventei uma Rosa para mim: devia ser uma filha mais autoritária, cheia de vontades, acho até que mandava na mãe. Era uma filha que devia dar trabalho. As mães sentem falta das filhas que dão trabalho. Até hoje, é assim.


