ENTREVISTA - Alma de cigana
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de dezembro de 2006
Mariana Trigo<br>TV Press 
Sônia Braga assume que é meio nômade. Mora onde tiver trabalho e garante que sempre está disposta a mudar de vida. Há 26 anos sem atuar numa novela inteira, a atriz de 56 anos garante que já se habituou com o atraso de capítulos de ''Páginas da Vida'' ou mesmo com a falta de frente no folhetim de Manoel Carlos. Pela primeira vez numa trama do autor, Sônia não esconde o entusiasmo sempre que esmiuça os detalhes de Tônia Werneck, uma escultora que, assim como a atriz, volta ao Brasil após uma longa temporada morando e trabalhando no exterior. Mas o que Sônia mais tem festejado no momento é a aproximação de Tônia com Tide, personagem de Tarcísio Meira. Eles se encontram quando a artista plástica é chamada para fazer uma escultura em tamanho natural da falecida Lalinha, personagem de Glória Menezes. ''O Tarcísio é minha memória mais distante de televisão e novelas. Nós fazemos parte da história da telenovela. Ao gravar com ele, tive a impressão de que havia morrido, pois minha vidainte ira passou como num filme'', emociona-se a atriz, que trabalhou com o ator em ''Irmãos Coragem'', de 1970, e ''Espelho Mágico'', de 1977.
Desde ''Chega Mais'', em 1980, você não atua numa novela inteira. O que a fez aceitar o convite para ''Páginas da Vida'' e deixar Nova York?
Tive vários convites para novelas, mas estava sempre comprometida com outros projetos nos Estados Unidos. Na verdade, não sei se é tão diferente fazer uma novela inteira ou apenas alguns capítulos. Novela é como um holograma, se você cortar qualquer pedacinho, ela continua inteira naquele pedaço. Quando o Maneco me ligou dizendo que a Tônia era minha cara, topei na hora. No exterior a gente trabalha com um calendário muito rígido, com antecedência. Mas falei com a minha empresária para não fechar nada no período de um ano. Já tinha passado muito tempo e eu devia trabalhar no Brasil. Não poderia recusar essa proposta. Mesmo se o Pedro Almodóvar me quisesse em um filme seu, não iria fazer. Estou apaixonada pela Tônia.
A Tônia se envolveu com o Silvio (Edson Celulari ) que é marido da amiga Olívia (Ana Paula Arósio) e, em seguida, Tônia se apaixona pelo Tide e vira madrasta da Olívia. Como você avalia essas ''relações em família''?
O Manuel Carlos é muito provocativo. Ele faz com que as pessoas reflitam sobre seus erros, acertos, vontades e desejos. É como aquela peça do Nelson Rodrigues, ''Perdoa-me Por Me Traíres''. Acho que essa provocação do triângulo com o Silvio e a Olivia deu certo por mostrar a análise dos personagens com seus sentimentos. Sempre achei que quando as relações estão para acabar é porque elas já acabaram há muito tempo.
A relação da Tônia com o Tide dá um novo fôlego para a personagem numa trama em que grandes atores praticamente atuam como elenco de apoio. Como você tem lidado com isso?
Me sinto valorizada. Agora só quero saber se a Nanda vai aparecer para mim! (risos). Na verdade, passei o início da novela gravando apenas esporadicamente, só fazia Tai Chi Chuan diariamente. Mas agora ela está no núcleo principal, tem uma relação engraçada com a empregada e uma relação maravilhosa com a Sabrina e o Vinícius, da Leandra Leal e do Sidney Sampaio. Eu e a Tônia sofremos mudanças ao chegar ao Brasil.
Do que você mais sente falta em Nova York?
Minha vida praticamente era ir ao cinema. Ia três vezes por dia. Principalmente na época do Oscar, pois sou membro da Academia. Gostava de assistir a tudo para poder votar direito. Além disso, me enviavam todos os filmes para casa, às vezes assistia a cinco filmes por dia e me deliciava. Disso tenho muita saudade. Também tirava muitas fotos de rua, treinava meu olhar. Evidentemente, no Rio a gente vive numa realidade que não dá para fazer isso pelos assaltos.
Falando em cinema, você é uma espécie de referência do cinema nacional no exterior. Por que atua tão pouco em filmes brasileiros?
Porque não sou convidada. O Daniel Filho me chamou para fazer ''A Partilha'' na época. Não quis porque já tinha sido feito no teatro e eu não me senti à vontade para representar uma personagem que já tinha sido interpretada por outras pessoas. Muitos acham que meu cachê é alto, mas sou uma pessoa bem acessível, não ando com guarda-costas. Percebo que as pessoas só querem me convidar para alguma coisa que seja importante. Isso complica. Também existe uma linha jovem de cineastas brasileiros que já se sentem mais seguros com seus grupos. Se eu puder assistir a filmes brasileiros, já estou feliz. Se não estou na tela, seguramente estou orgulhosa na platéia.
Do que você mais se orgulha na sua carreira?
De ter feito ''Dona Flor e Seus Dois Maridos'' e ''Gabriela, Cravo e Canela''. Foram trabalhos que abriram fronteiras, que são vitoriosos nesse sentido. A adaptação de uma obra de Jorge Amado era uma coisa incrível para aquela época, há 30 anos. Isso era novidade, além de ser na segunda novela das dez. Era na época que a tevê em cores havia sido lançada. Sou muito de época, né? (risos).
Excepcionalmente hoje deixamos de publicar a coluna Clique Aqui, de Kátia Michelle


