Aguinaldo Silva é um vaidoso assumido. Desses que compram todos os cremes, perfumes e hidratantes a que tem direito. ''Enquanto existir a L'Oreal, meu cabelo não fica branco'', ri. Mas a vaidade do autor não é apenas estética. Com o sucesso de ''Senhora do Destino'', ele parece ter ficado ainda mais cheio de si. De todos os autores da Globo, é o único que só escreveu novelas para o horário das oito.
Aos 60 anos, Aguinaldo gaba-se da responsabilidade de falar, todas as noites, para um público estimado em 60 milhões de pessoas. Por isso, garante, toma cuidado com tudo o que escreve. ''Numa novela das oito, não dá para ousar muito. Como sou conservador, sempre me pergunto se gostaria de ver determinada cena na tevê'', avalia. Mesmo assim, ''Senhora do Destino'' liderou o mais recente ''ranking da baixaria'', divulgado pela campanha ''Quem Financia a Baixaria É Contra a Cidadania''. De um total de 269 reclamações, 54 foram contra ''Senhora do Destino''. ''Se a novela não tivesse a audiência que tem, ninguém se chocaria com coisa alguma'', desconversa.
Como se sente ao saber que fala, todas as noites, para um público estimado em 60 milhões de pessoas?
sso é muito complicado. Todo dia, eu me perguntava: ''Meu Deus, o que eu vou dizer hoje para essas pessoas?''. A responsabilidade, reconheço, é muito grande. Numa novela das oito, você não pode ousar muito. Porque as minhas opiniões, vamos e venhamos, podem não combinar com as opiniões de quem está assistindo, não é mesmo? Por isso, costumo dizer que novela é um produto que se dirige a um público tão grande que você tem de ser cuidadoso com o que escreve para não chocar ninguém...
Qual é o seu principal critério para saber se determinada cena vai ou não chocar o público?
Alguns pentecostais trabalham na minha casa e sei que todos eles assistem à novela. Uma coisa que eu sempre me pergunto é: ''Como será que eles vão me olhar amanhã?''. Eu me preocupo muito com a opinião deles porque sei que, se eles não ficarem chocados com o que viram, então, as outras pessoas também não ficarão. Recentemente, fiquei preocupado com a cena em que a Nazaré lavava privadas na delegacia. No dia seguinte, estava no escritório quando uma delas abriu a porta, me cumprimentou com uma risadinha e foi embora. Logo, pensei: ''Ah, que bom, ela gostou!''.
Quais personagens superaram as expectativas?
Eu tive muito medo do núcleo da Comunidade da Pedra. Pelo realismo daquela favela, achei que as pessoas pudessem rejeitá-la. Tive receio da história do Barão e da Baronesa. Achava que a história daqueles velhinhos elétricos poderia não agradar. Inclusive a outros velhinhos. Tive medo também de que a Nazaré ficasse ''over'' demais. Por isso, apelei para o humor. Ao contrário de outros vilões, que ganham todas, ela sempre fracassa. Para fugir do Madruga, por exemplo, desceu por uma corda e, quando chegou em casa, descobriu que esquecera a bolsa. No final, todos funcionaram, cada um à sua maneira.
E qual deles ficou aquém do esperado?
Olha, tem um personagem que, por culpa minha, acabou não rendendo o esperado, que foi a Yara. Fiquei devendo essa para a Helena (Ranaldi). A certa altura, tive de transportá-la para a casa da Maria do Carmo. E, lá, eu já tinha personagens demais com histórias demais. Aí, tive de sacrificar alguém e acabou sendo a Yara...
Se estivesse viva, o que sua mãe, a verdadeira Dona Maria do Carmo, teria achado da novela?
Provavelmente, ela faria como a Maria do Carmo: se não gostasse de alguma coisa, falaria na cara! Honestamente, acho que ela ficaria ofendida com algumas coisas. Minha mãe tinha o mesmo espírito autoritário em relação aos filhos que a Do Carmo. Ela gostava também de ter a família toda reunida e, principalmente, de interferir na vida de todo mundo. Ah, e tem a coisa da comida também... A frase ''Eu tô varada de fome!'', inclusive, era dela. Por essas e outras, acho que ela diria: ''Meu Deus, você não podia ter feito isso comigo... Quem foi que deixou?''. (risos)

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