ENTREVISTA - Adrenalina na voz
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de julho de 2003
André Bernardo<br> TV Press 
Desde que estreou na Globo em 1996, o locutor esportivo Maurício Torres não se lembra de ter narrado um jogo tão ''taquicárdico'' quanto aquele Brasil e Sérvia-Montenegro, na final da Liga Mundial de Vôlei da semana retrasada. Embora tenha se esforçado para manter o tom isento e profissional, ele reconhece que, por vezes, o torcedor falou mais alto que o jornalista. Tanto que, a certa altura, num ponto brasileiro, chegou a bradar um descompensado ''Graças a Deus!''. ''Num jogo do Brasil, você nem precisa se policiar muito porque, em tese, todo mundo está torcendo pelo mesmo time que você. Mesmo assim, é importante torcer sem distorcer'', pondera.
Já refeito da ''taquicardia'', Maurício embarca para Santo Domingo, capital da República Dominicana e sede do Pan-Americano de 2003, que começa no dia 1º de agosto. Apesar da pouca idade, o locutor de 32 anos já cobriu duas Copas do Mundo, duas Olimpíadas e um Pan-Americano, em 99. Enquanto não viaja, ele intensifica o que considera a parte mais difícil do trabalho: o levantamento de dados sobre os atletas inscritos na competição. ''De onde vou tirar informações sobre um corredor de El Salvador ou sobre um atleta de arco e flecha da Nicarágua? O 'garimpo' é sempre muito puxado. Vem mais 'cascalho' que qualquer outra coisa'', brinca.
Você imaginava que a final entre o Brasil e a Sérvia-Montenegro pela Liga Mundial de Vôlei pudesse ser tão emocionante a ponto de render aquele ''Graças a Deus!''?
Sabia que o jogo seria difícil, mas não imaginava tanto. Afinal, era um confronto entre o campeão mundial e o campeão olímpico. Mas aquele ''tie-break'' entrou para a história: 31 a 29 em meia-hora... Mal comparando, o ''tie-break'' lembra a disputa de pênaltis no futebol. Aquele jogo, para falar a verdade, parecia mais um Brasil e Argentina no futebol...
Em algum momento, você acha que extrapolou os limites da isenção e do profissionalismo?
Num jogo ''taquicárdico'' como aquele, você tem de fazer companhia para o cara que está em casa, seja para acalmá-lo, seja para sofrer junto. Não dá para vestir um terno e gravata, como os locutores ingleses que transmitem o torneio de Winbledon... Houve momentos excepcionais, como a virada no quarto set, em que deixei de ser jornalista para ser torcedor. O mais importante, porém, é nunca distorcer os fatos. Senão, a imagem vai desmentir você...
Você é botafoguense assumido. Já aconteceu de alguém acusá-lo de imparcialidade num jogo do Botafogo?
Quando narrei a Final da Copa do Brasil de 1999, entre Botafogo e Juventude, o Renato Machado, que é botafoguense doente, me deu uma dura no dia seguinte: ''Vem cá, Maurício, você é gaúcho?''. ''Não''. ''Você tem família no Rio Grande do Sul?''. ''Também não''. ''Então, por que você torceu tanto para o Juventude ontem???''. Aquele foi o maior elogio que eu podia receber...
A partir da próxima semana, você participa da cobertura do Pan-Americano de Santo Domingo. Qual é a maior dificuldade de cobrir um evento poliesportivo?
É justamente o fato de ele ser poliesportivo. Numa Copa do Mundo, você tem apenas uma modalidade esportiva. No caso do Pan ou da Olimpíada, você tem de saber tudo sobre uma infinidade de esportes. Tenho de estar preparado para narrar tanto um jogo de vôlei quanto uma prova de natação. Só no atletismo, você tem um sem-número de provas. Salto com vara é diferente de salto em distância, que é diferente de maratona e assim por diante...
Qual teria sido o momento mais marcante de sua carreira?
É difícil dizer. De cada evento que cobri, guardo milhões de histórias. Mas Atlanta, sem dúvida, foi um acontecimento na minha vida. Tinha acabado de chegar na Globo, quando fui escalado para cobrir a Olimpíada. Lembro que foi lá que conheci um dos meus ídolos no esporte: o bicampeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva. Todo dia, ele dava um pulinho na cabina da Globo e puxava assunto com a gente. Para um moleque da minha idade, então com 25 anos, aquilo foi inesquecível.


