ENTREVISTA - A sinistra felicidade de Tim Burton
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quinta-feira, 20 de outubro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Óculos escuros enormes e já quase permanentes, na certa comprados nessas vitrines móveis a céu aberto e disfarçando olheiras também enormes. Tudo preto calça, camisa, paletó, sapatos. Embora o relógio marque quase quatro horas, isto é, o entrevistado saiu da cama há horas e a mesa redonda da qual participo não é a primeira do dia o look é o habitual desgrenhado, de quem saiu da cama há pouco, perdeu o pente e não encontrou o espelho. Não é sujo. É desgrenhado natural mesmo. Como nunca o entrevistei, não tenho parâmetros para saber se está melhor ou pior. Depois de certa dispersão e alheamento de início, vai ficando muito mais à vontade e com certeza parece bem feliz enquanto conversa com a Folha e outros quatro jornalistas estrangeiros que estavam em maio, no Festival de Veneza.
O ar de felicidade talvez se deva ao fato de que este californiano, de 47 anos, acrescentou recentes e importantes mudanças em sua vida pessoal. Como o casamento com a atriz Helena Boham Carter (que dubla a noiva-cadáver do título), a mudança para Londres e a paternidade. E ainda deu o troco a Hollywood, que o julgou acabado depois da medíocre refilmagem de ''O Planeta dos Macacos''. Seus dois filmes anteriores a ''Corpse Bride'', ''Peixe Grande'' e ''Fantástica Fábrica de Chocolate'' foram muito bem recebidos por crítica.
Retomando ano passado um projeto que surgiu há cerca de dez anos, logo depois de ''O Estranho Mundo de Jack'', Burton realizou afinal ''A Noiva Cadáver'', utilizando a mesma animação artesanal em ''stop motion'' daquele filme que ele apenas tinha escrito e produzido. A história é menos obscura, mais divertida do que aquela contada em Jack. Em que pese o aspecto lúgubre do argumento, o filme respira alegria, romantismo e ternura. Especialmente entre os mortos.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista com este artista cujo desalinho exterior é inversamente proporcional à dimensão de seu talento e à qualidade de seu trabalho, e que há duas décadas vem mantendo o difícil status de ''autor'' numa engrenagem hollywoodiana via de regra impessoal.
Há um contraponto mais ou menos permanente entre o mundo dos vivos e o dos mortos em seu cinema. Por que esta fixação?
Pode ser porque nasci e cresci em Burbank, Califórnia, cenário sob medida para ''A Noite dos Mortos Vivos'' (ele adora a comparação e ri muito). Os monstros sempre me fascinaram, e nunca entendi porque o tema da morte é visto com algo escuro e negativo, a inspirar medo.
Sempre se diz que seu universo de imagens, por ser assim obscuro, não é recomendável a crianças que consomem filmes de animação.
É, sempre me dizem que sou muito tétrico para as crianças (de novo ele se diverte muito com o que diz). Mas não penso assim. ''A Noiva-Cadáver'' é um conto de fadas, uma história de amor cheia de humor. Um cachorro morto, por exemplo, é um personagem de comédia. Um tributo a todos os animais de estimação que vivem bem menos que as pessoas, e que já morreram. A idéia de reencontrar com um cão amigo na terra dos mortos é algo que deve agradar a todos que gostam de animais. Às vezes são os pais que censuram os filhos em demasia. Meu filho tem dois anos e já mostrei a ele ''Quando os Dinossauros Dominavam a Terra''. Ele ficou encantado! Quem sabe não vai se tornar tão freak como eu?
O que o atrai tanto neste tipo de animação?
É uma técnica que transmite muitas emoções e que existe desde o princípio do cinema. É um trabalho bem da velha escola. Aqui não há quase nada feito por computador, e isso dá qualidade táctil. Quando você vê como fazem os bonecos, armam o set, as luzes, você sente que se faz alguma coisa muito mais ligada à arte do que ao negócio.
As pessoas o classificam como alguém obscuro, mas aqui você parece muito alegre e entusiasmado, exatamente o oposto...
É que a imprensa me criou este personagem (ele novamente ri muito). Acontece que rotulam você logo de saída, e isto fica para sempre, não importa o que faça. Você pode se vestir de palhaço, e todos dirão que é um tipo obscuro.
E isso já era assim desde muito tempo, quando ia à escola...
Infelizmente tudo começou lá (o riso agora é geral, para celebrar a contradição). Não sei o que ocorria, nunca me vi como alguém estranho. Era um tipo tranquilo. Um pouco anti-social, alguém que preferia os filmes de monstros...
E agora que vive uma viva feliz e tranquila, os monstros ainda são interessantes?
É claro que sim, mas agora os vejo com frequência relacionados ao governo (ele aqui apenas sorri).
Tim Burton e Johnny Depp. Parece que há um nível permanente de cumplicidade, fidelidade e confiança entre vocês.
Sim , com certeza, já vamos para o quinto trabalho juntos. É um ator sempre aberto ao desafio, sempre disposto a experimentar coisa novas. É dócil, camaleônico, espontâneo, há ótimos códigos de entendimento entre nós. É um dos poucos atores que vem mantendo uma integridade artística absoluta numa indústria que seduz para depois triturar.
Em ''A Noiva Cadáver'' estão de volta dois temas reincidentes em sua filmografia; amor e morte. Por que o interesse?
Mas é disso que trata a vida! E de que mais eu falaria?
Leia a crítica de 'A Noiva-Cadáver', de Tim Burton, na página 4.


