Falar de sexo e afeto nos dias atuais ainda mostra-se desafiador. E relacionar esses dois assuntos baseados nos preceitos da Igreja Católica, frente aos inúmeros questionamentos, muito mais. Sobre o tema, o monsenhor Vitor Groppelli lança na segunda-feira seu 16º livro, intitulado ''Afetividade e Sexualidade - Pêndulo da Felicidade'', pela editora Ave-Maria.
O livro discorre sobre a importância e a seriedade da sexualidade na sociedade atual, seguindo as orientações do catolicismo. Groppelli serviu à paróquia de Londrina durante 28 anos, tendo atuado como vigário-geral. Foi pioneiro na cidade em atendimento e aconselhamento a casais, descasados e recasados, orientando e dando cursos. Foi também reitor do Seminário Teológico. Atualmente vive na Itália, onde aprimora estudos sobre matrimônio, com o curso de aperfeiçoamento na área de Psicologia Familiar, em Roma.
Confira os principais trechos da entrevista que o monsenhor Vitor Groppelli concedeu à Folha2.

Por que escrever um livro sobre sexualidade?
A longa experiência que tenho como padre (41 anos de ministério) me levou a constatar que as pessoas nascem e vivem sem ter tomado conhecimento da identidade sexual. Na confusão do mundo, o homem deixou de sê-lo para dar lugar ao macho, e a mulher deu lugar à fêmea. Então, convivendo com pessoas de todas as faixas etárias a gente acaba descobrindo quais foram os preconceitos que orientaram essa ignorância a respeito da identidade de cada um e, ao mesmo tempo, uma preocupação de querer transmitir valores para fazer com que as pessoas sejam contentes e felizes com o que elas são, por uma opção que vem de Deus.

Há um trecho em seu livro, onde diz que Cristo nunca falou em sexo, nunca se posicionou a favor e nem contra. A partir disso, existe uma visão equivocada?
Existe porque se cobra muito da Igreja algumas autorizações. A Igreja tem que ajudar as pessoas a se realizarem em plenitude, mas Ela não pode se equivocar. Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança. A Igreja tem que levar as pessoas a se valorizarem, não pela orelha, nariz ou dedo que elas possuem, mas pelo conjunto harmonioso, que também tem uma potencialidade sexual destinada a produzir felicidade, e a alegria de ser pai ou mãe.

Hoje o sexo é praticado com ou sem amor. Como a Igreja se posiciona frente à essa realidade?
A igreja não faz guerras; ela quer conscientizar as pessoas para que se dêem conta que o importante não é responder a esses apelos da mídia, mas realizar a si mesmo em plenitude e alegria de ser o que a gente é. A publicidade alicia as pessoas em função erótica; ela estimula instintos que os levam a pensar que a mulher e o homem são um objeto disponível aos apetites eróticos de quem vê uma propaganda. O que nós devemos fazer, como cristãos, é devolver a todo ser humano a consciência da sua própria divindade sexual.

O senhor comenta sobre a distribuição indiscriminada de toneladas de camisinhas, feita por políticos com parceria dos meios de comunicação social. As estatísticam mostram que as pessoas estão iniciando sua vida sexual cada vez mais cedo. Não seria pior, dada a censura por parte da Igreja, que se proliferassem essas doenças e o número de nascimentos indesejados?
Neste campo existe muita confusão e uma tendenciosidade. A igreja diz o seguinte: as pessoas que se conservam virgens, nunca recebem e nem transmitem doenças venéreas. O casal fiel ao compromisso não adquire doença venérea. Então, é necessário fazer uma reflexão nesse sentido. O que acontece hoje é que se pensa em camisinha como a solução dos problemas e nunca como a causadora deles. O governo entrega aos adolescentes preservativos como quem diz ''aprontem, contanto que usem isso''.

Existe alguma facção da igreja que seja mais liberal a respeito dos métodos anticoncepcionais?
Sim. É inevitável que haja uma opinião e outra ao mesmo tempo. O que entra em questão é a minha maneira de conceber o que eu estou lendo, ouvindo e assim por diante. O caminho mais correto é o respeito pela natureza. Agora, quando a Igreja fala com autoridade, eu como cristão não tenho mais direito. Tenho que respeitar. Assim como todos os que moram no Brasil devem obedecer a Constituição.

Com tanta censura, não poderia gerar mais culpa? Isso não afastaria cada vez mais os fiéis?
Não porque não é importante que todo mundo seja cristão. É importante que todo mundo procure a Deus sinceramente, isso está num dos últimos Salmos da Bíblia. Para ser salvo não é necessário ser cristão. Tudo que é visto como uma pressão torna-se antipático. Porém, tudo que é transmitido de uma forma muito natural, ela prepara as bases para um futuro diferente.

O senhor é a favor do celibato?
Eu sou a favor do celibato inteligente e sou a favor do matrimônio inteligente. Porque nós já estamos diante de duas vocações diferentes. O celibato não pode ser uma imposição, mas uma opção pessoal, assim como o matrimônio, uma opção consciente do casal. O celibato foi surgindo de uma forma bonita: eu quero viver aqui na Terra como Jesus viveu.

Para Deus, todos os Homens são iguais, certo? Então, como fica essa discriminação com respeito aos homossexuais?
Justamente porque para Deus todos são iguais. Ele elaborou os Dez Mandamentos para que todos cumprissem. Evidentemente que diante de Deus cada um se apresenta com as suas fragilidades e pede a Ele que o dispense de algum dos mandamentos. A discriminação somos nós que o fazemos. Desde sempre, para ser sacerdote, tem de ser um homem íntegro, capaz de educar suas próprias emoções. E assim, caso se apresentem pessoas incapazes de realizar as atividades do matrimônio, nós temos a obrigação de não aceitar (homossexuais como sacerdotes). Uma pessoa é dona de si mesma, é responsável, é honesta e capaz de educar os filhos, de fazer crescer marido e mulher, então está a altura disso. Esse impedimento é para ser padre, e para ser pai ou mãe também. A discriminação pode existir onde eu deixo Deus de lado em favor dos meus gostos.

O senhor é muito procurado pelos fiéis para dar orientação sobre sexualidade?
Eu trabalho há muitos anos com atendimento. A gente constata que há muito trabalho a ser feito na área, pois parece que as pessoas não se sentem bem com a própria sexualidade e suas carências afetivas. Muita gente encontra paleativo e não encontra luz para descobrir o próprio valor para viver serenamente sua identidade.

Serviço:
- Lançamento do livro ''Afetividade e Sexualidade - Pêndulo da Felicidade'', de Vitor Groppelli. Editora Ave Maria. Segunda-feira, às 20 horas, no Hotel Crystal, em Londrina. Mais informações pelos telefones (43) 3323-7171 / 9118-0706

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