ENTREVISTA - A miséria de chuteiras
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de abril de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
''O Paraíso É Bem Bacana'' é o tipo de romance que não tem nada a esconder. Nas primeiras páginas já abaixa todas as cartas do jogo. Também logo no começo já desenha a linguagem da narrativa. Todas as surpresas não estão guardadas nos fatos. Estão devidamente guardadas na vasta imbecilidade do ser humano em produzir fatos.
''O Paraíso É Bem Bacana'', lançado pela Companhia das Letras, é o primeiro romance do escritor mineiro André Sant'Anna. Após publicar dois volumes de contos por pequenas editoras, ''Amor'' (1998) e ''Sexo'' (1999), sua literatura começa a ganhar uma maior visibilidade. Pautado pela linguagem oral e por um ritmo próprio, suas histórias entram de cabeça em temas e abordagens carregadas de contemporaneidade.
Em ''O Paraíso É Bem Bacana'', um craque do futebol está numa cama de hospital de Berlim próximo da morte. Trata-se de um homem-bomba que, em nome de Alá, explodiu uma bomba que carregava da cintura. Tudo aparentemente normal nos dias de atuais se o sujeito em questão não fosse um adolescente brasileiro chamado Mané, negro, pobre, semi-analfabeto, jogador de futebol, que não sabe praticamente nada sobre a causa islâmica.
Mané decidiu explodir o próprio corpo depois de ver num folheto de propaganda religiosa que, o homem que morresse, teria um paraíso só para ele. E o mais importante: 72 virgens à sua completa disposição para satisfazer vastas fantasias sexuais. Tímido e problemático demais para tocar numa mulher, enxerga nessa possibilidade a salvação de seus desejos, o fim das maratonas onanistas.
E ''O Paraíso É Bem Bacana'' André Sant'Anna narra a história de Mané através de dezenas de vozes. No decorrer da narrativa, essas vozes vão compondo a trágica trajetória de Mané, da infância na cidade de Ubatuba ao leito de morte em Berlim. Um sujeito que, pela miséria material, emocional e cultural em que vive, só pode ''ser alguém'' se for um craque de futebol. Visivelmente sua única virtude.
A infância e a adolescência de Mané é o retrato de uma paisagem do inferno. Vítima de todo tipo de crueldade e sadismo dos colegas, seu mundo é deslocado basicamente para o sexo. Uma das principais coisas que lhe faltam numa infinita lista de ausências. Sua fixação no sexo é tão imperativa que, em sua constante redundância, passa a significar o vazio.
''O Paraíso É Bem Bacana'' é uma travessia por um mundo onde todos os tipos de misérias se encontram. Não para uma festa apoteótica, mas para simples banho. E para esse banho, todas precisam ficar nus. Confira a entrevista que André Sant'Anna concedeu à Folha2.
Seus trabalhos anteriores a ''O Paraíso É Bem Bacana'' são basicamente constituídos de contos e narrativas curtas. Como foi se lançar numa narrativa de maior fôlego como o romance?
Bom, acho que a diferença principal em relação ao tamanho do livro foi eu ter escrito direto no computador. Com isso, perdi a noção de tamanho. Quando percebi que o livro estava ficando grande, gostei de ter desrespeitado a regra que diz que devemos enxugar ao máximo nossos textos. Então, fui embora, sem freios.
O livro retrata o lado cruel da infância e da adolescência, principalmente entre pessoas do sexo masculino. Você acha que essa crueldade é humanamente inevitável no relacionamento entre os garotos, funcionando como uma espécie de instrumento de competição para a auto-afirmação, ou trata-se de uma conduta cultural?
Acho que é uma conduta humana a competição, o desejo de ver o outro por baixo, para nos sentirmos ''acima''. Mas, nos detalhes, aquela coisa do sexo reprimido, de se falar muito da vida alheia, acho que é bem de cidades menores. Vivi a pré-adolescência em Ubatuba, numa época em que uma mulher ''desquitada'', como minha mãe era, ainda causava burburinho. Então, presenciei muitos lances de sadismo infantil.
Embora o futebol seja uma paixão presente no cotidiano brasileiro, ele não aparece com frequência na ficção produzida no país. Você vê algum motivo específico para o futebol permanecer quase exilado enquanto temática dentro da literatura brasileira?
De fato há pouco de futebol na literatura brasileira. Não consigo ver uma razão para isso. Talvez venha de uma certa divisão entre intelectuais e pessoas que gostam de futebol, aquela história de ópio do povo,etc, de o ''menino que joga futebol não gostar de ler e escrever''.
No romance, bem como em alguns de seus textos anteriores, você utiliza uma linguagem que envolve uma série de repetição de palavras, algo que tanto pode ser encarado como minimalismo ou como reprodução de uma saturação. O que você busca com a utilização dessa linguagem?
É uma questão de ritmo mesmo. Ritmo musical. É para reforçar determinadas passagens, determinados trechos melódicos. Mas acho que tenho vários modos diferentes de usar as repetições. Em ''O Paraíso É Bem Bacana'', revezo trechos longos, repetitivos, com trechos bem rápidos.
A principal atenção do personagem principal, Mané, está no sexo. Quando ele finalmente percebe a existência do amor, não pode vivê-lo. Trata-se de um sintoma trágico do mundo contemporâneo?
É sim. Acho que nós nem gostamos tanto de fazer sexo assim, mas temos que manter a pose o tempo todo. Pose de que queremos fazer sexo o tempo todo, pose de quem merece fazer sexo o tempo, através de grandes atributos como o tamanho do p..., a capacidade de fazer gols, de escrever poemas ou qualquer coisa parecida. No entanto, ''all you need is love''.
Mané é um personagem traumatizado, sem estrutura psicológica, desprovido de qualquer capacidade de comunicação, culturalmente miserável, detentor de uma inteligência pífia, socialmente problemático, mas que joga bola como ninguém. Esse seria o perfil de um novo anti-herói brasileiro?
Não sei se eu daria o nome de ''anti-herói brasileiro'' ao personagem. Transformei o Mané em ''nada'', pensando na incapacidade do brasileiro para superar os problemas, o empobrecimento metafísico do brasileiro, a baixa qualidade humana. O brasileiro é bem ruim. O futebol é a única exceção, é o ''pelo menos''.
Serviço:
- Livro ''O Paraíso É Bem Bacana'', de André Sant'Anna. Editora Companhia das Letras, 456 páginas, R$ 55,00.


