ENTREVISTA - 'A minha religião é a poesia'
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Pedagogo, poeta, filósofo de todas as horas, cronista do cotidiano, contador de estórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, autor de livros para crianças, psicanalista, Rubem Alves, 71 anos, é um dos intelectuais mais respeitados do Brasil. Em Londrina, na última sexta-feira, foi ovacionado por 1,9 mil pessoas que participaram da palestra ''Encontro com Rubem Alves''. No evento, educadores e pais ansiosos por saber um pouco mais daquele que tão íntimo se faz através do conteúdo e poesia dos seus textos.
Como ele diz, ''quem escreve, espalha um pedaço de si para os outros...''. É quase que uma eucaristia. E esse mineiro de Boa Esperança, que admira intelectualmente o escritor Guimarães Rosa, entre tantos outos, tem uma cabeça que fervilha de idéias. A escola para ele não pode ser repressora, Deus não pode ser engaiolado e a poesia é a salvação para todos aqueles que admitem que precisam ter contato com o belo para serem melhores, aliás, para deixar fluir aquilo de bom que já está dentro.
Em visita à Folha de Londrina, Alves, falou de diversos assuntos. Se recusa a falar de política, mas não deixa de tecer severas críticas à educação de modo geral. Não tem receio de polemizar, ao contrário, expõe suas idéias com uma imensa naturalidade de quem já muito viveu e se dá a liberdade de falar sem tabus e dogmas. Hoje diz que a sua religião é a poesia e não esconde que a decepção que teve com a igreja protestante, da qual fazia parte, serviu para abrir os seus olhos para as instituições religiosas. Foi chamado de ''subversivo'', na época da ditadura, porque tinha idéias diferentes. Achava que a religião não era para garantir o céu, depois da morte, mas para tornar esse mundo melhor, enquanto estamos vivos. E define: ''o riso é o início da oração''.
Quando o senhor fala da qualidade da educação, isso não poderia estar relacionado com a má remuneração dos professores?
Não. Se o professor não gosta de aluno você pode pagar bem que isso não vai resolver. Se ele ama o que faz, não vai penalizar o aluno porque ganha mal. Eu não estou dizendo que os professores não precisam ganhar mais, merecem muito mais, mas é engano você pensar que dando salários maiores automaticamente você vai melhorar a qualidade da educação. Eu não conheço nenhum exemplo de mau professor que passou a ser bom, depois de ganhar mais.
Como o senhor avalia a atual política educacional?
Eu não avalio a atual política do Brasil. Não sei qual é a política educacional atual. Só sei que esse projeto de universidade para todos é uma grande tolice. Por que universidade para todos? Qual a vantagem? Vai para a universidade para ficar sem emprego? É uma fantasia que universidade seja coisa boa. Salve-se da universidade. (...) Falta emprego e tem gente com diploma vendendo sanduíche. Essa proliferação de faculdades não aconteceu para que as pessoas ficassem mais educadas, mas para os empresários ficarem mais ricos.
O senhor aproxima a poesia da espiritualidade. O senhor se emociona quando escreve os seus textos?
O meu filósofo favorito, Nietzsche, dizia que só amava os livros escritos com sangue. Depois, o Guimarães Rosa, em uma entrevista pouco antes de morrer, dizia que é preciso conhecer a alquimia do sangue do coração humano. (...) Quando você está escrevendo, não está dando um relatório. Está colocando no papel uma experiência que quer transmitir para uma pessoa. E, para mim, é profundamente emotivo. Eu fico com raiva, eu dou risadas...É comum eu acordar de madrugada e ir para o computador porque é um prazer mexer nos textos, vê-los se formando. É uma espécie de ritual antropofágico porque quando a gente faz isso, está distribuindo um pedaço da gente para outras pessoas. E a grande alegria é o retorno, principalmente das pessoas que também escrevem. (...) O surpreendente na literatura é como as coisas mais inesperadas fazem contato com as pessoas, que dizem que foram transformadas por uma crônica. Eu acredito muito nisso. E não acredito em livro comprido - ele é bom para a ciência. Mas, o que move as pessoas são coisas extramemente curtas.
O que mais o influenciou intelectualmente?
Quem realmente me impactou foi Nietzsche, Albert Camus, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa...Rosa me assombra muito intelectualmente, mas não mexe comigo emocionalmente. Acho-o absolutamente genial, mas não me emociona. Adélia Prado me comove. A Cecília Meireles também emociona, tem uma mística muito profunda. Uma profunda espiritualidade que não tem nada a ver com religião. Tem a ver com o mistério. Isso que eu gosto, do mistério. Eu sou espiritual porque eu me sinto diante de um grande mistério. Não tem nada a ver com dogma religioso que eu não acredito.
O que o senhor quer dizer quando afirma que é ''meio ateu''?
Isso foi uma consequência da acusação que sofreu quando foi chamado de ''subversivo'' por integrantes da igreja presbiteriana a que pertencia, na época da ditadura militar?
Isso mudou a minha vida devido à decepção e de perceber que aquela instituição, pela qual em certo momento eu estava disposto a dar a minha vida, estava pronta a se livrar de mim. Mas foi bom para abrir meus olhos sobre as instituições religiosas. Sobre o ateísmo, o Chico Buarque tem um verso que diz assim: 'saudade é o revés do parto, é arrumar o quarto para o filho que já morreu...' Quem é que ama mais? A mãe que arruma o quarto para o filho que vem amanhã ou a mãe que arruma o quarto para o filho que não vem nunca? Eu desejo que Deus exista. Eu amo Deus. Mas se eu acredito que Deus existe, eu só poderia odiá-lo porque ele não fez nada para impedir o tsunami. Quem sobreviveu, dizia: 'foi Deus quem me salvou'. Mas se Deus salvou aquela pessoa por que não salvou todo mundo? Não era um esforço a mais, não era mais difícil. Então as pessoas não devem falar essas besteiras.
Isso o irrita?
O que me irrita não tem nada a ver com Deus, mas com as coisas que as pessoas pensam sobre Deus. Como é que elas pensam aquelas coisas sobre Deus? São tão tolas e, se eu fosse Deus, eu jogava uma praga nelas. Eu me sinto diante de um mistério profundo, a vida como um grande mistério, mas esse mistério não pode ser engaiolado. Isso é o que frequentemente muitas religiões querem fazer. Engaiolar Deus em gaiolas de dogmas, então, pássaro deixa de ser pássaro e se transforma em pássaro empalhado, um ídolo.
Hoje o senhor é praticante de alguma religião?
Não. A minha religião é a poesia, a beleza, e eu tenho meus textos sagrados.
E a psicanálise?
Faz três anos que eu parei de exercer porque eu estava começando a ficar tão obcecado pela literatura que eu me sentia desonesto com os meus pacientes. Eu os escutava e ficava pensando no próximo texto que eu iria escrever. E aí, parei, mas aprendi demais com a psicanálise.
Ouvir os pacientes era uma fonte de inspiração?
Você nem imagina quanto. Frequentemente eu falava para o paciente que aquela história iria se transformar em crônica. Não achava honesto me apropriar das histórias sem falar com eles. Muitas idéias fundamentais chegaram através da psicanálise.
O que é possível para sermos melhores pais e professores?
Nada, absolutamente nada. E tem uma coisa que eu acredito: o que é bom já nasce pronto. Pela minha experiência, já vi gente maravilhosa nascer na favela e outras, de ótimas condições finaceiras, serem pessoas horrorosas. Acho que as pessoas precisam travar contato com as coisas boas que há dentro delas. Não será por ler livros de auto-ajuda que isso irá acontecer. Isso não é bom, elas ficam enganadas. O que pode-se fazer é ajudar para que as coisas boas das pessoas aflorem. Isso é possível e é uma das funções da poesia. Taí uma coisa que posso sugerir: que elas leiam poesia para ficarem melhores.


