ENTREVISTA - A maturidade como grande aliada
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de julho de 2005
Renata Petrocelli<br> TV Press 
Quando ainda era uma atriz desconhecida do grande público, dedicada exclusivamente ao teatro, Eliane Giardini ouviu do diretor Antônio Abujamra a afirmação de que ''mulher de voz grossa nunca faz a mocinha da história''. Mais de 20 anos e várias novelas depois, a intérprete da divertida viúva Neuta, de ''América'', ri só de lembrar o ''aviso''. E, de certa forma, credita ao fato de nunca ter vivido papéis protagônicos na tevê a absoluta satisfação com o momento atual da carreira, aos 51 anos de idade. ''Não passei uma vida inteira fazendo protagonista na tevê. Comecei com coisas pequenas e passei para os bons e grandes papéis. É uma trajetória ascendente'', constata, esbanjando serenidade.
De fato, Eliane não tem do que reclamar. Desde que se destacou em ''Renascer'', ao transformar a inicialmente periférica Dona Patroa numa grande personagem, a atriz não parou mais de interpretar bons papéis entre eles, a cigana Lola, de ''Explode Coração'', a impagável Nazira, de ''O Clone'', e a pintora Tarsila do Amaral, da minissérie ''Um Só Coração''. Nem sempre, no entanto, foi assim. A ansiedade com relação à trajetória profissional já foi tão grande que Eliane pensou que não alcançaria o reconhecimento por seu trabalho. ''Imaginava que o tempo me daria esta barreira. As mulheres mais velhas só faziam mães choronas. Mas veio uma renovação e hoje elas têm outros interesses e até vida afetiva'', pondera, com seu habitual modo agitado de falar.
Neuta que o diga. Aos poucos, a austera viúva começa a se dar conta do indisfarçável interesse romântico do peão Dinho, vivido por Murilo Rosa, além dos olhares cobiçosos de vários peões de Boiadeiros. Enquanto isso, Eliane se diverte com o jeito ''desligado'' da personagem. ''Acho legal ela não perceber que tem este apelo'', avalia a atriz, que não vê a hora de Neuta se deparar com a revelação da homossexualidade do filho, Júnior, interpretado por Bruno Gagliasso. ''Cativar as pessoas com uma personagem e depois apresentar uma problemática dessas é praticamente uma terapia em grupo'', ressalta Eliane, entre risos.
Apesar da aparente rigidez, a Neuta é uma personagem com forte potencial para o humor. Isso facilita a identificação com o público?
Acho que o humor é um grande lance. Tudo que eu puder fazer com humor, faço. Não banalizando, nem ''jogando para a arquibancada'', não é neste nível. Mas acho que o humor é a maior qualidade que um ser humano, e também um personagem, pode ter. É claro que gosto de fazer drama, comecei minha carreira fazendo muito drama, sempre fui considerada uma atriz dramática, até por vir do teatro. Mas houve um momento em que as pessoas descobriram que eu poderia fazer humor. A partir daí, tudo ficou mais gostoso. A Neuta sem este toque de humor seria insuportável, até porque não seria crível. Uma pessoa muito rígida começa a ser risível. Tudo que sai da medida fica risível. Controlando isso com o humor, fica muito melhor.
Foi isso o que mais atraiu você na personagem?
Sempre o que mais me interessa é saber se posso fazer alguma coisa pela personagem. Se ela está num momento de transcender uma situação, de se transformar, se modificar. Personagens que tenham esta possibilidade são muito interessantes. Os que não têm, sinceramente, me apavoram. Passa a novela inteira e eles ficam ali, na mesma toada. É preciso visualizar um ponto de transformação daquela pessoa, pensar que ela saiu de um ponto e vai chegar a outro de um jeito totalmente diferente.
Você enxerga isso na Neuta?
Sempre imaginei que ela é, na verdade, uma pessoa muito diferente do que aparenta atualmente. Acho que ela se tornou assim, que levou uma rasteira feiíssima de um peão e endureceu em função disso. Ela virou uma espécie de pai e mãe, uma pessoa dura, cheia de defesas. Mas é totalmente ''do Bem'', traz aquela garotada para morar na casa dela, acolhe todo mundo, é a mulher mais poderosa daquele lugar, mas tem os ouvidos muito abertos para as necessidades das pessoas, se envolve com os problemas de todo mundo. E acho que pode acontecer algo muito interessante quando o filho revelar que é homossexual. Com certeza isso vai trazer leveza para ela, porque ela é uma pessoa que resiste muito às novidades, mas depois compra totalmente a idéia.
Que tal, aos 51 anos de idade, receber um convite para posar na ''Playboy''?
A ''Playboy'' é uma revista que vende mulheres jovens e bonitas. O fato de estar de alguma forma incluída neste rol já é um elogio. Não preciso nem fazer este ensaio, o elogio já está feito. E aí eu fico só com a parte boa. Tem uma coisa legal que é o fato de que todas as mulheres que estão na minha faixa de idade podem se sentir envaidecidas também, porque estão incluídas nisso. Significa que esta faixa de idade não exclui possibilidades.
Você acha que hoje lida melhor com a passagem do tempo?
Acho que estou na idade do ''tudo posso''. Uma hora isso passa. Mas faço parte de uma geração meio emblemática, que rompeu com milhares de padrões e valores estabelecidos na década de 60 e agora está rompendo com os limites da velhice. Assim como aos 20 anos eu percebi que, se quisesse, poderia não me casar, ou casar de vermelho, ou estudar... É a mesma geração, uma geração do questionamento. A gente descobriu que não precisa colocar um pijama e ficar aposentado em casa, porque existe uma vida para se reescrever e se recriar. Não sei como vai ser a velhice da minha geração. Estou vendo muita gente envelhecer muito bem e outros envelhecendo muito mal. Eu estabeleço metas para mim, é possível fazer concessões e estabelecer exigências. O fato de querer permanecer na juventude é péssimo. É preciso trabalhar para estar bem, com muita saúde, o melhor que se puder ficar, mas sem querer se fixar no passado.


