Curitiba - Não foi atuando diretamente na sua profissão que o médico Drauzio Varella virou uma celebridade nacional. O boom na carreira de Varella aconteceu tardiamente, após os 50 anos de idade, quando ele resolveu expor suas experiências profissionais através da literatura. Agora já vítima da sarna que ''pega e não despega nunca mais'' termo usado por Machado de Assis para explicar o que acontece àqueles que adentram no campo das letras tardiamente, Varella está divulgando seu segundo livro. ''Por um fio'' nada tem a ver com o primeiro ''Estação Carandiru'', um sucesso tão grande que acabou virando longa-metragem, mas já encabeça a lista dos livros mais lidos das pesquisas divulgadas na mídia brasileira. E foi sobre isso, sobre o tardio encontro com as letras que Varella conversou rapidamente com a Folha, minutos antes de iniciar uma palestra sobre a novo livro na Livrarias Curitiba do Parkshopping Barigui esta semana:

Como que é para um médico adentrar no campo da literatura?
Acho que deve ter sido uma experiência igual a de qualquer pessoa que entra no campo da literatura. Ela é uma atividade muito absorvente. Você começa a escrever e vai sendo tomado por isso. Machado de Assis diz em ''Memórias Póstumas de Brás Cubas'' que a escrita é uma sarna que quando pega depois dos 50 anos não despega. O que ele queria dizer é que muitos começam a escrever cedo e páram de escrever. Mas os que começam depois dos 50 não páram mais. Eu acho que ele tinha razão. Comecei a escrever ''Estação Carandiru'' com 56 anos de idade.

Por que o senhor escreveu ''Estação Carandiru''?
Pelo interesse de contar essa história. Quando eu conversava com algum amigo e contava as histórias da cadeia ficava todo mundo tão interessado. Eu evitava contá-las em reuniões pois virava o assunto. E aí disse: se eu conseguisse juntar todas as histórias poderia fazer um livro. E fiquei tão apaixonado pela feitura, por escrever o livro que nunca mais parei de escrever depois dele.

E a exigência com o que o senhor lê e escreve aumentou depois de ter se tornado um escritor famoso? Mudou o seu olhar clínico?
Completamente. Interessante porque você quando lê, por exemplo, Dostoieviski, você não ousa imaginar que ele tenha escrito coisas que não são interessantes. Ou que num dado momento ele descreva uma situação que você diga que não está bem escrita. Você não ousa, pois ele é um monstro sagrado da literatura. E quando você começa a escrever você lê com olhar de escritor e entende porquê foi escrito daquela maneira. Muitas vezes você começa a ver os defeitos e as grandezas dos outros.

O senhor acredita que pode ''curar'' também com a literatura?
Um livro tem muitos objetivos, mas a função básica da literatura é modificar as pessoas. Há livros que não te acrescentam nada, mas há aqueles que você lê e se torna uma pessoa diferente. Acho que só justifica você escrever um livro, você passar anos escrevendo a mesma história e depois publicá-la com um monte de gente na editora envolvido nisso, se o livro, no final, provocar uma transfornação em quem lê. Não tenho a pretensão de uma transformação radical, nada disso. Mas de você ler e começar a enxergar a realidade de uma outra forma. Um pouco diferente. Quando você consegue obter isso com um livro ele cumpriu seu papel.

E essa relação de ter cumprido seu papel, ou seja, tem a ver com curar pacientes na medicina?
Acho que tem. De alguma forma se você está modificando a pessoa que leu aquilo, por mais insignificante que seja, está colaborando para alguém se enriquecer, para melhorar a forma de encarar a vida.

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