O ator Celso Frateschi, na segunda apresentação hoje no FILO de ''Sonho de um Homem Ridículo'', às 21h30, na Usina Cultural, reunirá no monólogo os estilhaços do mundo de Fiódor Dostoievski (1821-1881), que explode sempre que um personagem ressurge da obra do autor russo, não suportando a instabilidade interior desse universo.
''É um tema que exige esse tipo de montagem. Acho que seria um pecado destruir esse mundo interior do Dostoievski, colocando vários atores em cena. Os personagens são muito da cabeça dele'', afirma o ator, autor e diretor, que também foi secretário de Cultura na gestão de Marta Suplicy.
É com essa mesma voracidade em entender e entrar nos personagens de Dostoievski, que Frateschi, que nos anos 70 participou do Teatro de Arena e que em 1998 criou o Ágora Teatro, está em cartaz até setembro, em São Paulo, com a adaptação de Ricardo III, de William Shakespeare.
''Para nós do Ágora, Shakespeare é tipicamente renascentista e vem explodindo com o pensamento medieval. O dramaturgo está para as artes, como Galileu Galilei está para a Ciência, colocando o homem no centro do universo. O homem passa a ser responsável pelos seus atos'', compara o ator, que concedeu entrevista coletiva no FILO, falando sobre o monólogo ''Sonho de um Homem Ridículo'' e a arte teatral.

A idéia de montar Dostoievski foi sua ou alguma sugestão?
Um amigo sugeriu para montarmos outro texto do autor, ''Memórias do Subsolo''. Foi um motivo para que começasse a reler outras histórias. ''Memórias...'' é uma novela mais estruturada, mas não consegui ter um insight para isso. Então tive tempo de reler contos do Dostoievski. Quando cheguei no ''Homem Ridículo'' disse: ''É esse''. Não é uma adaptação simples. Romance nunca é simples para o teatro, mas faz parte do trabalho do Ágora. Estava saindo de um período de quatro anos em que não criei nada, na época em que era secretário, fazendo apenas algumas atuações, como no ''Evangelho Segundo Jesus Cristo'', de José Saramago. Fiz também uma outra participação em ''Horácio'', um solo curtinho, que sempre procuro apresentar. Estava pensando em voltar, chamei para alguns amigos para o ''Sonho de um Homem...'' e acabou dando certo. A idéia era fazer cinco semanas e já estamos completando um ano em cartaz, com apresentações além de São Paulo, em Curitiba, Porto Alegre e Recife.

Existe alguma predileção sua em montar monólogos?
Me dou bem fazendo monólogos. Esse é o quinto ou sexto que faço. Não tenho predileção, mas às vezes, alguns trabalhos exigem monólogos, como ''Sonho de um Homem de Ridículo''. Acho um pecado destruir esse mundo interior do Dostoievski, colocando personagens, que são muito da cabeça dele. Você escolhe o tema e, uma vez definido esse primeiro casamento, o resto tem que sair naturalmente. Não adianta.

O personagem do monólogo é o mesmo da obra de Dostoievski?
Usei alguns elementos do ''Subsolo''. O personagem original não é um funcionário público, como no monólogo. Ele não é definido pelo Dostoievski ao ser apenas uma pessoa de uma nobreza decadente.

A opção em torná-lo um funcionário público surgiu de sua experiência na administração municipal?
Veio da experiência como funcionário público sim, que de alguma forma se amarra à infelicidade de querer cargos e pontos a mais para incorporar no salário. Eu não consigo entender. Fui funcionário público e não me coloco como superior. Tem uma nobreza na função e isso no cotidiano vai se depreciando e aí vira uma roda viva. Eu limpo um cinzeiro e não posso servir café porque tem um desvio de função, por exemplo. Vai se criando uma mesquinharia mórbida.
Porém, eu tive pessoas que trabalhavam comigo até às 5 da manhã. Temos esses dois lados no funcionalismo público. É aquele o personagem de Dostoievski, que explode e tem que lidar com isso aí no limite da loucura. A peça começa com ele quase abusando sexualmente de uma menina. A que limite ele chega?

No Brasil existe uma carência de novos textos e autores teatrais?
A dramaturgia no Brasil ainda não conseguiu ter uma tradição. No teatro moderno, na época da ditadura, a dramaturgia teve um período ruim de repressão num momento em que poderia explodir. Temos bons autores, mas não dá para comparar com os clássicos. Até mesmo com Nelson Rodrigues não se pode estabelecer uma relação comparado-o aos grandes dramaturgos. Precisamos construir isso aí. Temos alguns grandes caras em quem podemos confiar, cito dois que são Newton Moreno e Fernando Bonassi.

Por sua experiência como secretário de Cultura e o seu trabalho de ator, autor e diretor, como você avalia as leis de incentivo à cultura?
Acredito que o teatro está correndo um risco grave de virar dependente. Sou crítico com as leis da forma como estão estruturadas. Em São Paulo criamos leis de fomento interessantes, visando um trabalho de continuidade e não só de montagem e que permite a sustentabilidade do grupo, o arroz com feijão mesmo, além de condições para que os atores possam investir na pesquisa. Ter editais bons é um grande avbanço, mas os critérios na composição das comissões julgadoras e de quem vai ser o fomentado ainda não são claros. Acho que existe um problema no Brasil: tanto o artista, como o governo não colocam o cidadão na política pública de cultura. Quando não se tinha lei de financiamento era comum os grupos fazerem oito apresentações semanais. Hoje só fazem duas porque aos patrocinadores interessa mais sair na Folha, que formar platéia.

O que você pensa da atual fase do cinema brasileiro?
Tem que baratear mais o filme. Acho que essa coisa digital que está chegando vai desmistificar o cinema nacional, independente de Hollywood. Além de ter produções maiores, passará a ter um público mais qualificado.

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