Curitiba - De agosto a novembro do ano passado, os vizinhos da jornalista Ana Maria Bahiana acharam que ela não estava em casa. Ninguém a via. Ela explica a ausência apresentando o resultado desse tempo em que, na verdade, ficou reclusa em sua própria cidade. Dividindo seus dias entre sua casa e o Arquivo da Cidade, no Rio de Janeiro, a escritora pesquisou e escreveu em tempo recorde o ''Almanaque Anos 70'' (Ediouro), um catatau de registros do comportamento daquela década tão marcante. Para concluir a obra, a jornalista chegava a passar 12 horas escrevendo, durante semanas a fio. ''Eu não gosto de levar as coisas em banho-maria, tenho que mergulhar no que estou fazendo'', revela. O livro será lançado em Curitiba na próxima quarta-feira, com a presença da autora.
''Almanaque Anos 70'' é uma compilação de fatos que marcaram época, mas também traz personagens fictícios, publicidade, moda, notícias e produtos ícones da época. Para selecionar esse farto material, a jornalista tomou como base três linhas de raciocínio: um ponto de vista brasileiro - os acontecimentos, mesmo internacionais, tinham de ter importância sob a ótica cultura nacional; todos os registros deviam ser confirmados, ou seja, mesmo nas entrevistas, a jornalista descartou situações em que as pessoas se lembravam, mas não comprovavam o fato. E o terceiro critério foi que a situação revelasse o comportamendo de uma década e não fosse apenas uma notícia solta.
Para a elaboração do projeto, Ana Maria consultou centenas de livros e documentos. Além dos seus próprios arquivos, lançou mão de uma coleção completa do Jornal de Música, que pertencia ao seu pai, Alberto Bahiana, que morreu quando ela ainda redigia o livro. Pesquisadores e historiadores a auxiliaram a garimpar informações nos acervos do Arquivo da Cidade, ABI e na Biblioteca Nacional. Ela também entrevistou alguns amigos como Nélio Rodrigues, Péricles de Barros Filho e Aguinaldo Silva. ''Eu não buscava a notícia apenas, mas coisas que pudessem reconstituir o comportamento daquela década'', ressalta a autora.
Depois de mergulhar nessa extensa pesquisa, Ana procurava uma solução estética para resumir todo o material colhido. Decidiu dividir a década em duas: ''1970-1974 - a era dos caretas e desbundados'' e ''1975-1979 - discoteca, punks e roqueiros''. ''O grande enigma para mim era saber como eu iria formatar esse projeto, já que eu não queria repetir o formato do 'Almanaque Anos 80' (lançado pela mesma editora), mas eu descobri que a década foi mesmo dividida em duas, bem diferentes'', conta. Para a jornalista os anos 70 tiveram uma rachadura no meio e ela mostra essa divisão no livro.
O Almanaque, que pode ser consultado aleatoriamente, seja para conferir o fac-símile da capa da primeira edição da revista Rolling Stone, até a moda indiana nas roupas e nas casas; ou comprovar a irreverência de O Pasquim, ou os livros, filmes, as músicas e as manias que marcaram a década, divide bem essas duas situações. No exterior a crise do petróleo, o fim da guerra do Vietnã, a queda de Nixon e a revolução islâmica no Irã tabulam o começo, meio e fim da década.
No Brasil, os marcos, praticamente nas mesmas datas, são o AI-5, as posses de Geisel e de Figueiredo e a Anistia. Um divisor comum fica por conta da disseminação da cocaína como droga prioritária, substituindo a maconha e o LSD exatamente no meio da década, quando acontece esse ''salto quântico'', essa divisão na música, nos costumes, no visual. ''Ao contrário dos anos 80, que são bastante uniformes e homogêneos, os 70 são idiossincráticos e tribais'', compara Ana.
Ela tentou não focar o livro nos acontecimentos do eixo Rio-São Paulo, mas revela que muita coisa daquela época acontecia no Rio de Janeiro, que ainda era a capital do País. ''Todo o resto do Brasil era tido como província'', diz. Isso muda na metade da década, mas ainda assim, a maior parte do livro tem como cenário situações vividas no Rio. Algumas histórias que aconteceram fora desse cenário foram pesquidas mas ficaram de fora. Como a insistência de um produtor de Londrina (que Ana Maria não lembra o nome) em realizar um festival de rock na cidade. ''O sonho dele era levar os Mutantes para tocar em Londrina, mas quando ele conseguiu contato, a banda se desfez. Achei essa história muito triste para colocar no livro'', brinca a jornalista.
Ela própria tem uma ligação muito próxima da época. A jornalista tem uma carreira que cobre três décadas de reportagem e comentário de cultura no Brasil e no exterior, em imprensa, rádio, televisão e internet. Ela escreveu para, entre outros, Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Opinião e Rolling Stone, no Brasil; New York Times, Syndicate, Escape e Beat, nos Estados Unidos; Le Film Français na França; Follow Me, HQ e Cinema Papers na Austrália.
Entre seus livros publicados - e vários falam do cenário dos anos 70 - estão ''Nada Será Como Antes'' (Civilização Brasileira, 1979 e depois pela Senac Rio, 2006); ''Jimi Hendrix: Domador de Raios'' (Brasiliense, 1980 e depois Pazulin, 2006); a antologia de ensaios ''Anos 70'' (Funarte, 1979 e depois Aeroplano/Senac Rio 2005). Ela também assina o argumento e é co-roteirista do filme ''1972'', de José Emilio Rondeau a ser lançado este ano pela Buena Vista.
Tudo isso, no entanto, não desperta nenhum tipo de saudosismo na autora. ''O passado pra mim é como o Japão. Eu gosto de visitar, mas não gostaria de morar lá. Eu vivo o presente'', compara. Por isso, revela ter encarado o projeto, com certa distância. ''Foi uma relação fria'', diz. O resultado, no entanto, é antagônico à essa experiência. O livro transporta o leitor de qualquer idade para o cenário da época e é capaz de despertar saudade até em quem não viveu nela. A conclusão de tanta informação? Ana Maria resume: ''Acho que nunca mais tivemos uma época tão produtiva. Com uma quantidade surpreendente de talentos em todos os setores. Acho que todos conseguiram produzir em todas as áreas apesar e por causa de condições adversas, como a censura'', finaliza.

Serviço:
- Lançamento do livro ''Almaque anos 70'', de Ana Maria Bahiana, seguido de bate-papo com a autora. Dia 25 de outubro, quarta-feira, às 19h30 no Teatro da Caixa (Rua Conselheiro Laurindo, 280), em Curitiba. Entrada franca. Informações (41) 2118-5233 e 3544-5613.

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