Você é de Londrina? Quando é que começou o seu interesse pela história da cidade?

Sim, nasci em Londrina em 1971. Em 1990 começou o meu interesse, a minha curiosidade pela história da cidade. Um amigo, Maurício Arruda Mendonça, me convidou para ver uns exemplares da Folha de Londrina da década de 80, ali na Biblioteca Pública. Gostei daquela sensação de ler algo familiar e estranho ao mesmo tempo, por isso voltei lá inúmeras vezes, sozinho, pelo simples prazer de ler notícias velhas, notícias da década de 50, de 60... Eu fazia o curso de jornalismo na UEL e tinha grandes amigos que faziam o curso de história. Um deles, Antônio Paulo Benatte, me passou um texto que ele havia escrito sobre as transformações sociais, urbanas e comportamentais ocorridas em Londrina na década de 50. E a principal fonte de pesquisa era os jornais da cidade. Essa relação entre o jornalismo, a história e a construção do imaginário da cidade foi um baque. Tranquei a faculdade e me enfiei na Biblioteca da UEL. Eu queria entender como se dava essa relação. Depois de um ano, acho que em 1993, voltei ao curso. Escrevi o trabalho de conclusão, depois a dissertação de mestrado lá em Curitiba, na UFPR, ainda tocado por essas ideias. No doutorado em História da Cultura na Unicamp, a filosofia de Nietzsche e de Foucault tomou conta do meu pensamento e acabei me afastando da história da cidade. Em 2011, voltei a me inquietar com essa história. Criei uma coleção chamada Doc.Londrina, e com o patrocínio do Promic organizei e publiquei três obras. A segunda edição dos livros "Escândalos da Província" de Edison Maschio, "Dos Porões da Delegacia de Polícia" de Marinósio Filho e "Coração Rueiro|João Antônio e as Cidades". E agora, no aniversário da cidade, mais um livro, "Oitenta Vezes Londrina". A cidade é inesgotável, né? Uma pesquisa se desdobra em novas questões, em novas perguntas, e a gente se lança para tentar entender como é que a cidade chegou a ser o que é hoje.


O que mudou na sua percepção sobre Londrina após essa pesquisa e produção do livro?

Acho que fiquei mais atento, mais sensível às diferenças que atravessam e constituem a cidade. De uma certa maneira, o nosso olhar foi treinado para reconhecer as semelhanças que criam identidades. Por isso, insistimos tanto na criação de grandes narrativas, símbolos, monumentos que reúnem as pessoas em torno de uma ideia, de um pensamento em comum. Só que ao se deparar com a história pedestre, cotidiana, ao acolher as trajetórias de vida dos indivíduos, o que a gente percebe é a multiplicidade, a pluralidade, a diversidade de pensamentos e modos de viver. A multiplicidade dá medo, é claro, porque gera conflitos e mais conflitos no território do cotidiano. Mas eu percebo agora que se trata também de uma riqueza da cidade. Aquilo que tememos hoje pode ser um caminho para a cidade entrar, de fato, no século 21. As diferenças que geram conflitos possibilitam também encontros, mestiçagens, mixagens criativas e renovadoras.


O que foi mais difícil nesse processo? Organizar as informações, selecionar as 80 histórias de 300...

O mais instigante foi a montagem de uma narrativa que preservasse essa multiplicidade de vozes, épocas, acontecimentos, espaços da cidade, mas sem perder o sentido, sem se lançar no abismo da incompreensão. No decorrer da pesquisa escrevi, tomei nota de pelo menos trezentas histórias que poderiam muito bem entrar no livro. Havia uma pluralidade de fontes e de gêneros narrativos: poemas, crônicas, reportagens, teses, depoimentos gravados ou transcritos, fotos, vídeos, processos de crime... Inicialmente eu olhava esse mar de informações na tela do computador e me batia um desespero. Como conectar esses fragmentos? De tanto contemplar acabei reconhecendo nesse mar algumas ilhas de sentido. Fragmentos que se aproximavam, que se conectavam um ao outro de alguma maneira. No final da jornada eu tinha um mapa para apresentar ao leitor-navegante, disposto a se encontrar e a se perder nessa narrativa descontínua sobre a cidade.
Teve algum relato que particularmente lhe comoveu mais? Foi mais marcante?

Sim, claro. Tiveram relatos que provocaram em mim reações físicas na hora em que eu estava decupando ou editando. Meu corpo reagia à história narrada, me dava uns arrepios, às vezes um nó na garganta, umas ondas de raiva que arrebentavam no teclado do computador. A jornalista Patricia Zanin é uma grande entrevistadora. Ela é do rádio, sabe conversar, e dessa conversa miúda, aparentemente banal, você ouve coisas desconcertantes. Ela entrevistou 44 pessoas que praticaram, com franqueza, o jogo do diálogo. Uma franqueza rara, difícil de ver, por isso talvez, a emoção ao ouvir essas narrativas, essas memórias tão vivas, plenas de vitalidade.


Você acompanhou as entrevistas feitas pela jornalista Patricia Zanin?

Não, eu não a acompanhei. Não havia tempo. A pesquisa foi dividida em duas frentes: ela fez as entrevistas, captou os relatos, as memórias. Eu fiquei com a parte bibliográfica. Garimpei personagens e histórias já impressas no papel. Depois reuni tudo pra tirar desse conjunto as oitenta histórias que compõem o livro.


Pensar a cidade dessa forma, saindo do "oficialesco", dando voz aos personagens da vida real, cotidiana, não é uma prática comum nos livros históricos. Como foi optar por esse caminho? Já era uma premissa desde o início do projeto?

Um dos entrevistados da Patricia Zanin foi o biólogo Eduardo Panachão, da ONG Meio Ambiente Equilibrado. E, lá pelas tantas, ele contou o seguinte: a Mata dos Godoy tem pouco mais de 700 hectares. Mas a reserva faz parte de uma região de quase três mil hectares onde há cerca de 70 a 90 fragmentos de floresta. Eu penso assim: a Mata dos Godoy seria a nossa história oficial. Tem visibilidade, é conhecida, é objeto de pesquisas e tudo o mais. Esses 70 a 90 fragmentos de floresta que o Eduardo estuda, desempenham o mesmo papel dessa multidão anônima que tentei captar no livro. É como se não existisse porque simplesmente não a conhecemos. No caso da Mata o problema que se anuncia é como criar corredores que liguem esses fragmentos à reserva principal para que o conjunto saia fortalecido, enriquecido pelas trocas. No campo da história, penso que a história oficial precisa também de conexões com outros fragmentos de história, para aumentar a complexidade, para dar uma arejada nos entendimentos. Aprendi com Nietzsche e Foucault que a história tem que nos afetar, tem que servir a vida que se renova. Estimular o nosso pensamento, e mais ainda, estimular as nossas ações e inquietações vividas e praticadas no tempo presente, que é o único tempo que temos para realizar as mudanças que desejamos. Eu realmente não sei se a história oficial tem essa força de produzir encantamentos, principalmente entre os mais jovens completamente desconectados desse passado idealizado e glorioso. Por isso resolvi caminhar por fora da mata. Era preciso experimentar um outro caminho.

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