ENTREVISTA - A aventura de ser escritora
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de março de 2006
Patrícia Villalba<br> Agência Estado 
Nélida PiÀon responde se por acaso se vê como uma Xerezade, personagem das ''Mil e Uma Noites'' e de seu último livro ''Vozes do Deserto''(2004): ''Eu, não. Os outros é que têm de ver, não é?'' Os outros vêem, sim. Mais do que isso, é a oratória que ajudou a consolidar sua obra no exterior - ela palestra, discursa e se faz presente nos mais importantes meios literários do mundo como poderosa intelectual que é. Primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras e vencedora do prêmio Príncipe de Astúrias das Letras no ano passado, nunca antes atribuído a um brasileiro, ela esteve no último sábado na Bienal do Livro, em São Paulo, para falar sobre a arte de narrar e, enfim, sobre a aventura de ser escritora. Antes, concedeu uma entrevista:
Falando da contadora de histórias Xerezade, do encontro com leitores na Bienal e nos diversos eventos de que a senhora participa no exterior, podemos lembrar o fascínio em torno dos escritores. Diante da maratona de sessões de lançamento que o mercado parece exigir dos autores hoje em dia, não se poderia dizer que este fascínio permanece inalterado ou é até mesmo maior?
A figura do escritor sempre foi prezada e enigmática na nossa sociedade. Não por ele, mas porque a criação é um ato enigmático. A criação vem das entranhas do criador, mas é algo também de apreensão rarefeita. Porque você é capaz de exaltar a linguagem através de uma moldura criativa. O que faz uma pessoa, mais do que inventar uma história, fabular uma linguagem narrativa? Como criadora, eu acho que por mais que você presida a criação, domine as técnicas e procedimentos, há aspectos muito imponderáveis na criação, que escapam ao controle absoluto do escritor. O autor escreve com o que ele sabe e escreve com o que ele ainda não sabe.
Com uma carreira tão bem-sucedida no exterior, a senhora acha que sua obra desperta mais interesse lá fora do que dentro do Brasil?
De fato, tenho muita visibilidade fora do País, tanto que ganhei os principais prêmios de literatura no exterior. Acho que isso acontece porque as pessoas me descobriram além dos meus livros, como a mulher que fala, que está presente nos debates internacionais. Imagine, eu já fiz mais de 50 discursos pelo mundo, recebi diversos títulos de doutor honoris causa.
Voltamos, então, à questão anterior, já que parece que a presença do autor mesmo faz diferença na divulgação da própria obra. Tem grande peso, mas não é o único fator. Mas as pessoas percebem que você não é apenas alguém que deu sorte de publicar um livro. Quem atrai, sobretudo, é a obra.
A senhora acredita que haja uma literatura essencialmente feminina?
Não, não gosto deste conceito. Acho que há uma obra feita por mulheres, mas não feminina, que me parece uma condição de demérito. No dia em que criarem a literatura masculina, eu aceito a literatura feminina.
Na Bienal do Livro, discutiu-se muito a construção de um caminho para a formação de novos leitores. Onde a senhora acha que está a chave para se aumentar o interesse pela leitura no Brasil?
São vários aspectos, mas o fundamental é enriquecer a educação brasileira. Estão ensinando apenas o ABC, e não a compreender o que se está lendo. A grande questão é que a erradicação do analfabetismo não traz consigo o entendimento da leitura. E é ela que vai legitimar a cidadania educacional. Sem livro, não há pessoa culta, nem remediavelmente culta.
Este é um tema discutido pela Academia Brasileira de Letras?
Eventualmente falamos sobre a precariedade do ensino no Brasil. Mas você há de convir que a Academia não é o Ministério da Educação. O Brasil precisa de uma adesão política à educação, empreender a maior de todas as batalhas. O povo brasileiro está condenado ao degredo educacional, está no limbo. Vivacidade não é cultura. Nós somos muito vivazes, mas não é o suficiente.
Como foi sua formação de leitora e quando a senhora teve o insight da criação literária?
Por acaso, no dia 5 de abril, vou inaugurar uma conferência do governo de Cáceres, com a presença dos príncipes, e o tema vai ser leitura e seu significado. Eu resolvi que vou fazer uma grande reflexão a partir de uma grande leitora, que sou eu. Eu sempre tive acesso a todos os livros, nunca sofri censura. Li desde Lobato a Dumas, e comecei a ler os grandes clássicos muito cedo. Li ''Crime e Castigo'' aos 13 anos. Estes livros todos me deram uma visão de mundo excepcional. Mas, muito antes, menina pequena, eu já me proclamava escritora. Tinha a convicção de que as histórias que eu lia tinham sido vividas pelos escritores - e eu queria ser aventureira. Há uma frase que repito muito ''eu era tão aventureira de espírito que eu sonhava em jamais dormir uma segunda noite sob o mesmo teto''. Sempre amei os escritores e amo meu ofício. Ser escritora brasileira sempre foi o meu grande sonho. Não o trocaria para ser a Maria Callas.
A senhora escreve totalmente no computador? Li que costuma reescrever várias vezes seus romances, o que me faz pensar que estes documentos de criação literária se perdem agora, com o computador.
Atualmente escrevo no computador, mas resisti muito, só comecei a usá-lo em 1999. E por anos eu escrevia primeiro à mão, para depois ampliar no computador. Mas só faço uma avaliação do meu texto quando imprimo. Sou uma leitora, não adianta. E tenho medo que o computador me passe para trás. Acabo de fazer e imprimo. Então, está tudo guardado. Eu tenho um apartamento só para manter os meus arquivos literários. Tenho manuscritos de uns 15, 16 livros. Até ''Vozes do Deserto'' tem material manuscrito. Tenho mania de papel.


