Com os rostos pintados de azul e cabeças cobertas por toucas de látex similares às usadas por nadadores, além de luvas também azuis, e roupas de cor preta, três homens surpreenderam aproximadamente mil convidados da Fiat em Buenos Aires. O ''susto'' aconteceu durante o lançamento do Punto, um veículo que é sucesso na Europa e agora chega à América Latina (Leia mais sobre o carro no caderno Folha Carro & Cia).
Todos estavam em um jantar, realizado num galpão antigo, no porto do Rio Riachuelo, no bairro La Boca, em Buenos Aires. Demorou um pouco para perceber que se tratava de um show e de boca-em-boca (com o perdão do trocadilho) os convidados ficaram sabendo que eram integrantes do Blue Man Group (Blue Man, BMG), uma organização criativa norte-americana fundada por Phil Stanton, Chris Wink e Matt Goldman nos anos 1980.
Eles começaram interagindo com o público, apenas através de gestos, sem nenhuma palavra, e aos poucos incendiaram a noite fria do inverno ''porteÀo''. Saíram de três carros Punto que ''despencaram'' do teto do salão, amparados em plataformas gigantescas. E depois foram para o palco. O show foi mais surpreendente ainda que a entrada triunfal do trio de caras pintadas.
O espetáculo apresentado na Argentina foi o mesmo mostrado no Brasil em junho e julho, em São Paulo e Rio de Janeiro. ''How to Be a MegaStar 2.0'' (Como ser uma superestrela 2.0), revela que até o mais estranho dos personagens, com a fórmula certa, pode ser um sucesso na indústria do entretenimento. Alguém se lembrou de algum cantor ou grupo musical ''famoso'' do momento?
O trio do BMG faz uma mistura original de mímica, comédia e música para entreter a platéia por mais de duas horas em um show que parodia popstars decadentes. No palco, os três homens azuis reconstituem, de maneira divertida, as atitudes, trejeitos e coreografias de cantores e cantoras do universo pop. A paródia inclui desde pulinhos ao ritmo da música às manifestações em favor de causas como a ecologia. Eles ''incorporam'' o rock, com ênfase em percussão, participação do público, iluminação sofisticada, e grandes quantidades de papel.
Na ''seção poncho'', um casal que estava na platéia foi equipado com camisetas brancas para protegê-los de várias substâncias que foram jogadas, ejetadas ou pulverizadas do palco, como comida, tintas etc. Outro momento ''alto'' do espetáculo mostrou como pegar marshmallows com a boca. A rapidez e elasticidade dos azuizinhos foram impressionantes.
Além do trio cara-pintada, chamou a atenção também uma das marcas registradas do BMG: os incríveis mais muito sonoros intrumentos. O mais original é o Drumbone, feito de cano PVC, e que causa um som quando é tocado por baquetas, e suas notas são mudadas ao levantar ou puxar a extensão do cano.
Outro instrumento muito diferente é uma vara (como uma vara de pescar) que, ao ser balançada, faz um som diferenciado como se fosse um mix, e seu som é ainda amplificado por microfones instalados na ponta da vara.
Eles também utilizam um piano, que é usado como instrumento de percussão. O piano fica em pé, com as cordas na vertical, e um integrante bate nas cordas com uma grande baqueta. O som é impressionante.
Impressionante também é o grande tambor. Amarrado a cordas, ele balança com intensidade a cada batida e faz tremer toda a arena de show. Parece com a batida do coração e é sentida por todo o corpo, mexendo ainda mais com a platéia.
O palco tem um gigantesco telão, luzes coloridas, efeitos com laser e uma banda com nove músicos. Todas as atenções, no entanto, se voltam para a figura de três homens carecas, mudos e pintados com tinta azul brilhante. Mais chamativo, impossível.

BMG tem 20 grupos que rodam o mundo
  Pouco conhecido no Brasil, o BMG surgiu no início dos anos 80, com encenações em bares de Nova York. De lá pra cá, cresceu e virou uma indústria, com 20 grupos que rodam o mundo e espaços fixos nos Estados Unidos e na Europa – eles têm hoje oito teatros exclusivos nos dois continentes.
  O espetáculo dos ‘‘Blue Men’’, com o uso quase teatral da música e malabarismos, nos remete ao Cirque du Soleil. Para Matt Goldman, co-criador do BMG, o recurso à comunicação não-verbal realmente aproxima os homens azuis da trupe circense multinacional. Mas, segundo ele, a semelhança pára por aí.
  ‘‘O Cirque du Soleil busca artistas de circo talentosos e os leva para se aprimorarem no grupo. Eles reinventam o circo. Já o BMG cria uma forma de arte nova – se já vimos algum número em algum lugar, isso é exatamente o que não vamos fazer’’, diz, imodesto.
  Ao lado dos amigos Chris Wink e Phil Stanton, Goldman criou o personagem azul em 1986, em Nova York. A tinta azul, aliás, é quase um personagem à parte; além de revestir o corpo dos artistas, colore todos os números – em vários espetáculos fixos, como o de Nova York, o público das primeiras filas se cobre com um plástico para evitar respingos do palco. E a música foi um passo natural, já que Wink e Stanton eram bateristas. (D.G.J.)

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