São Paulo, 14 (AE) - A exposição "Território Expandido", que será inaugurada na quarta-feira (19) durante a festa de entrega do Prêmio Multicultural Estadão, no Sesc Pompéia, é mais do que uma maneira inovadora de homenagear as 14 personalidades da cultura nacional que foram indicadas para participar da terceira edição do evento. Além de apresentar ao público uma leitura artística sobre as contribuições desses artistas e intelectuais, a mostra também coloca em pauta uma das questões mais instigantes da arte deste século, teorizada pela crítica norte-americana Rosalind Krauss: a idéia de que a escultura tradicional perdeu o espaço para novas formas de expressão tridimensionais "mais próximas da vida humana e de suas contingências reais", explica a curadora Angélica de Moraes.
É interessante notar nos 14 trabalhos reunidos no saguão do Sesc Pompéia como a arte vai ultrapassando todas as categorias, inovando na busca de novos materiais, técnicas e procedimentos. "Hoje em dia para se fazer escultura é necessário entender de gás, como Daniel Acosta, ou lidar com complexos cálculos de design industrial, como Ana Maria Tavares", exemplifica a curadora. "Não se trata de renegar a arte do passado nem de impor um modelo hegemônico e sim de entender um pouco mais as características e objetivos da arte contemporânea", afirma.
Os convidados a participar da mostra completam um panorama bastante amplo da produção brasileira atual, incluindo desde figuras de grande destaque no cenário nacional, como Carmela Gross, Carlos Fajardo e Nelson Félix, até artistas em início de carreira, como Valérie Dantas Mota, que tem apenas 22 anos. O resultado, no entanto, é bastante harmônico.
"Território Expandido" é uma exposição calma, que intencionalmente se opõe às montagens barrocas. "As obras tem de ter um espaço mais generoso à volta", defende a curadora. O fato de o branco ser a cor predominante, a iluminação pontual dos trabalhos ajuda a criar um efeito cênico silencioso, com o objetivo de permitir que o espectador admire os trabalhos da mostra com mais tranquilidade. A única exceção evidente nesse predomínio do branco - que algumas vezes dá lugar a cores neutras como o prateado do aço inox, o marrom da madeira ou o bege do granito - é o vigoroso vermelho que Carmela Gross usou no manto que concebeu em homenagem a José Celso Martinez Corrêa.
Instalada num canto da sala de convivência do Sesc - local ideal para alguém incompreendido e à margem da sociedade tradicional como ele - , a peça também remete à idéia de circo, de tenda, de um espaço mágico dedicado ao espetáculo. Mas essa obra, assim como as outras expostas no local, tem como principal atrativo o fato de manter uma estreita relação com a trajetória de cada um de seus autores. "Não estamos fazendo uma adaptação", esclarece Lúcia Koch. Na verdade, o que ela faz é estabelecer uma espécie de diálogo com a obra do cineasta Júlio Bressane, usando como ponte entre os dois a questão da luz. Pesquisando a relação entre cor e luz há algum tempo, a artista gaúcha conta que "bateu o pé" para trabalhar sobre Bressane.
O estabelecimento das parcerias entre artistas e indicados foi feita de comum acordo pelo grupo, respeitando as admirações pessoais de cada um, assim como as afinidades com o obra sobre a qual teria de trabalhar. Assim, tornou-se mais fácil estabelecer uma sintonia entre a linguagem individual de cada artista e a personalidade da pessoa que teria de representar.
O trabalho de Fernando Limberger é um exemplo dessa coerência. Para representar Maurice Capovilla ele estendeu um pano branco, das dimensões de uma tela de cinema, e sobre ele "plantou" uma série de enxadas para simbolizar o trabalho que o cineasta vem desenvolvendo no Pólo Cinematográfico do Ceará. Mas sua instalação também estabelece um jogo formal entre os planos horizontal e vertical e dá continuidade a seus últimos trabalhos no qual associa planos de cor a objetos tridimensionais.
O fato de ter de criar uma peça de certa forma sob encomenda não incomodou Limberger ou seus colegas de exposição. Muito pelo contrário: "Acho esse tipo de iniciativa muito adequada ao artista contemporâneo, que deve ter múltiplas formas de inserção no cenário artístico", explica.

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