Entre quatro paredes
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de dezembro de 1996
Zeca Corrêa Leite<br> Sucursal de Curitiba 
A fotógrafa Lina Faria detém seu olhar sobre as pessoas e o cenário que elas criam em suas intimidades. Este ano, um trabalho sobre a estética das pessoas simples lhe valeu a inclusão numa coletiva em Londres e numa publicação internacional. Ela acaba de ser escolhida pela comissão julgadora do 9º Prêmio Marc Ferrez, promovido pela Funarte, para realizar o projeto Prisão Feminina (A Prisão Enquanto Lar, o Lar Enquanto Prisão).
Este vem a ser praticamente uma continuação do trabalho anterior. Ou seja, Lina vai, mais uma vez, transformar sua investigação num passeio sensível entre quatro paredes, buscando a feição de quem ocupa esse espaço.
A paranaense se diz bem acompanhada. Os demais fotógrafos que integram o grupo de premiados com as bolsas concedidas pela Funarte são Elza Lima - Trombetas (Pará), Márcia Alves - Inventário (Maranhão), Marcos Prado - Reciclagem (Rio de Janeiro), Ricardo Peixoto - Quilombos (Paraíba).
Prisões O projeto de Lina Faria traz no título uma metáfora, embora a prisão feminina esteja na lista dos locais a serem percorridos por sua lente. A fotógrafa explica que sua intenção é registrar a interferência que o homem e a mulher fazem no ambiente em que vivem por mais insalubre, árido que seja.
Não deixa de ser o meu tema recorrente, que eu falo de modo quase obsessivo, comenta. Porém nesta nova empreitada em primeiro e único plano estará a mulher, cujo senso estético é mais forte que o do homem, acredita Lina. A mulher coloca a poesia, o arranjo de flores, tece o pano de parede. O homem é o prático, o que tem habilidade funcional, esclarece.
Culturalmente a mulher continua sendo a do lar, um tanto estática, aguardando aquele que virá, como se tivesse o destino de Penépole: tecer e esperar. Ainda assim cabe a ela marcar com sua presença, como a funcionária pública que depois de 20, 30 anos num setor faz desse espaço sua prisão, mas à sua maneira - colocando gnominho, florzinhas, violeta.
Lina irá se encontrar com aquelas que transformaram parte da casa em salão de cabeleireira, manicure, atelier de corte e costura. Esse universo se estende outros pólos como o das garotas de programa, com sua prisão ligada entre o quarto e o chuveiro. No projeto a fotógrafa incluiu o quarto de prostituta como um dos itens a serem realizados, mesmo imaginando que terá dificuldades para realizá-lo.
Homenagem Outro ponto delicado é o das prisões femininas, propriamente ditas, apesar de já ter estado atrás das grades fazendo seus registros. As diferenças entre homem e mulher aqui são ainda mais evidentes. Os prisioneiros colam nas paredes imagens que unicamente revelam o objeto de seu desejo sexual.
As mulheres têm uma visão de lar e afixam fotos de outras mulheres como referencial, naquilo que elas podem se retratar. Quando vou à Prisão Feminina não é para criticar as que estão lá. É para homenageá-las, mostrar como elas tiram proveito disso, revela Lina.
Como será feito esse trabalho? Ora, da maneira mais simples e direta possível. Quero ir nas casas, bater palmas, entrar, mostrar como vive essa gente, explica a fotógrafa com naturalidade. Está escolada no assunto: Há tempos fotografo pessoas na intimidade.
Para os registros em preto-e-branco (mesmo em cores, quando alguma cena pedir que assim seja) Lina Faria irá procurar seus modelos nos ditos banais, não quero famosos. Ela também não está à procura do extraordinário. Quero gente em situações triviais que conseguem colocar dignidade no que fazem.
Apesar do projeto estar voltado à Curitiba, a autora fará uma viagem até o Mato Grosso, na região da Grande Cuiabá, para colher um material com as redeiras. Seus lares são uma espécie de prisão. Essas operárias moram em ranchinhos na zona rural, e o tear que elas utilizam toma todo o espaço do quarto em que vivem.
Elas produzem durante um mês uma rede que é a renda mensal delas. Elas esperam pelo marido, sem saber se eles voltam. São as próprias Penélopes. Mas quero também pegar as ceramistas, que são a grande sustentação da família, anuncia. Na visão de Lina Faria essas anônimas são verdadeiras rainhas. Quero ver como é esse reinado delas, segreda.


