Entre Poty e Botticelli
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terça-feira, 28 de julho de 1998
Simone Mattos 
Após ser reconhecido como discípulo de Poty Lazzarotto, o artista plástico curitibano Adoaldo Lenzi Júnior acaba de ser comparado ao renascentista Sandro Botticelli, artista italiano que, entre outras obras, assinou O Nascimento de Vênus.
Atualmente morando e estudando em Florença, a capital mundial das artes, Lenzi Júnior acaba de inaugurar a sua primeira exposição no exterior. A Accademia Nazionale DellArte de Roma recebeu 15 desenhos monocromáticos assinados pelo curitibano, que retratam o cotidiano de Florença. Ele é citado no convite da mostra como um Botticelli do ano 2000.
Lenzi Júnior tem 21 anos, é acadêmico do curso de Artes Plásticas, em Curitiba, e atualmente está estudando na Academia Leonardo da Vinci, em Florença. Sempre que posso faço cursos paralelos sobre determinados artistas, como Leonardo da Vinci e Michelângelo. Agora pretendo fazer um sobre Botticelli, para conhecê-lo melhor, afirmou.
Convivendo com as artes desde que nasceu, Lenzi Júnior começou a estudar desenho aos oito anos, com o artista Alberto Massuda. Aos 11, ele começou a trabalhar no estúdio de seu pai, um dos mais importantes integrantes da equipe de Poty Lazzarotto.
Menos de dois meses antes de morrer, Poty o reconheceu publicamente como o natural seguidor de seu trabalho. Na época, os dois já haviam realizado uma série de obras em conjunto, entre elas o painel de Itaipu e outro, recentemente inaugurado, no setor de transplantes de medula do Hospital de Clínicas, em Curitiba.
Cumprindo temporada de dois meses na Itália, Lenzi Júnior enviou um convite da sua exposição à Folha de Londrina/Folha do Paraná e concedeu a seguinte entrevista, via e-mail:
Estar estudando e expondo em Florença é a realização de um sonho?
Lenzi Jr. - Eu nunca tinha sonhado tão alto. Nunca tinha pensado em estudar fora do Brasil e muito menos em expor num museu tão importante como o da Accademia Nazionale DellArte Antica. Para mim isto era uma grande fantasia, se é que se pode falar assim.
Quem são seus professores?
Lenzi Jr. - Embora não sejam conhecidos, meus professores são muito bons. Aqui impera o acadêmico e nisto eles são perfeitos.
Eles conhecem a obra de Poty Lazzarotto?
Lenzi Jr. - Quando eu cheguei aqui, fiquei muito triste e decepcionado, pois ninguém nunca tinha ouvido falar do nosso Poty. Foi aí que eu resolvi pegar um livro sobre o Poty, que o Rafael Greca deu para que eu trouxesse para a Itália, e dei uma aula sobre ele. Agora tenho certeza que, pelo menos os artistas da Academia, conhecem superbem Poty Lazzarotto.
Quantas horas diárias você dedica ao estudo das artes e ao desenho?
Lenzi Jr. - Cerca de dez. Eu entro na academia às 9 horas e estudo História das Artes até às 13 horas. Minha aula de Desenho vai das 14 às 19h30 ou 20 horas.
Como é o seu cotidiano em Florença?
Lenzi Jr. - No início fiquei extasiado com tantas obras de artistas que até então eu só tinha visto em livros ou ouvido meu pai e Poty falarem. Eu moro ao lado da Igreja de Santa Cruz, onde estão enterrados Michelângelo, Galileu Galilei, Dante Aliguieri, Rossini e outros. Sempre que eu posso vou até lá para admirá-la. Ela é linda e por incrível que pareça não é muito visitada.
O Poty sempre incentivou a sua ida para Florença. A experiência está valendo a pena?
Lenzi Jr. - Tratando-se de desenho, qualquer lugar que você vá é válido, contanto que esteja com papel e lápis na mão. Mas aqui tudo é mais propício para o desenho. É tudo muito bonito, agrada aos olhos, sem falar no clima de mistério que há entre as obras dos artistas, que fazem a gente voar. Mas se eu pudesse escolher, preferia estar sentado ao lado do Poty, vendo ele desenhar.
Como é ser comparado com Botticelli?
Lenzi Jr. - Para mim é muito gratificante. Primeiro ser reconhecido como artista pelo Poty, o meu mestre maior, e agora pela sociedade italiana. Isto é muito bom. Sobre a comparação com Botticelli, não tenho palavras para explicar como me sinto, acho que tudo está vindo muito rápido para mim e eu ainda não tive tempo para parar e pensar.
Quais são seus planos profissionais para a volta, em Curitiba?
Lenzi Jr. - Além de fazer alguns painéis e continuar a faculdade, tem uma coisa que eu quero realmente fazer, ou tentar fazer. Quem mora em Curitiba, geralmente não conhece a arte do interior e vice-versa. Eu quero tentar de alguma forma mesclar isto, a partir da base. Fazer, por exemplo, com que os alunos de escolas públicas do interior conheçam os artistas da sua e de outras cidades. O mesmo seria feito na Capital. O projeto poderia se estender das artes plásticas para a literatura, o teatro, a música, etc... Sei que isto é difícil, mas não é impossível. Conto com a ajuda de vocês.


