Christine Fernandes parece uma mulher de séculos atrás. Caminha como quem flutua sobre impecáveis vestidos de época, fala baixo e assume que se identifica mais com os romances literários do que com o imediatismo das relações contemporâneas. Mesmo assim, contradiz a aparente fragilidade e toma atitudes vorazes quando se interessa por uma personagem. É uma predadora, o que fica bem claro ao vê-la no ringue de muay thai, luta oriental que pratica quase diariamente. Foi diante dessa dupla natureza, entre o suave e o feroz, que esta americana nascida em Chicago, no Illinois, esmiuçou seu deslumbre com Ariane, sua personagem em ''Viver a Vida'', na Globo. Para sua terceira personagem numa trama de Manoel Carlos, a atriz pesquisou como nunca. Soube que iria interpretar uma médica especialista em Medicina Paliativa - que cuida da qualidade de vida dos pacientes terminais e passou meses frequentando hospitais especializados em tratamentos para câncer e conversando com médicos oncologistas para embasar sua atuação. ''Tenho a esperança de que o Maneco dê mais abertura para falar sobre esse assunto, que é de extrema importância quando se fala de superação'', destaca.
O principal foco de sua personagem na trama é a Medicina Paliativa. Mas o tema que mais tem se destacado é a questão ética do envolvimento dela com o marido de uma paciente terminal. Como você avalia essa personagem?
Minha maior expectativa nessa novela era o tema dos cuidados paliativos. Tenho a esperança de que esse assunto ainda vire o foco porque é um serviço social muito interessante. Aqui no Brasil ainda é uma especialização da Medicina e não uma área médica, como no Canadá e em alguns países da Europa. Minha pesquisa toda foi em cima disso durante seis meses. Fui para o Instituto Nacional do Câncer e acabei ficando amiga de médicas, convivi com oncologistas, cirurgiões, estou bem respaldada. Essa dedicação heróica dos médicos dessa área deveria ser apresentada para o público. O objetivo é dar qualidade de vida aos pacientes terminais. A relação da Ariane com o Léo (de Leonardo Machado) teve uma certa rejeição e não sei se o Maneco vai aprofundar nisso.
Como foi essa rejeição?
Houve apenas um encantamento e talvez as pessoas considerem essa aproximação antiética. Na minha opinião, as paixões são devastadoras. Faz parte da vida a gente se apaixonar pela pessoa errada e no momento errado. Quem nunca viveu isso, que atire a primeira pedra. Sou mais permissiva em relação a isso. Mas aprendi a baixar minhas expectativas com as personagens e deixar o autor trabalhar. Queria que a profissão dela tivesse o destaque merecido, mas sei que televisão é um pouco o exercício da frustração.
Você está frustrada com essa personagem?
Adoraria poder mostrar a profundidade desse tema. Conheço pacientes terminais que estão nessa condição há anos. Muitos têm câncer, tiveram metástase e são pessoas de bem com a vida que vivem com restrições. Mas quem não tem alguma restrição na vida? Como paciente terminal ele pode até viver mais tempo que nós, que somos saudáveis. A Medicina Paliativa mostra que a gente não deve jogar no lixo quem tem uma doença incurável. Podemos melhorar a qualidade de vida deles com médicos, fisioterapeutas, psicólogos. Fico sempre com a expectativa que o Maneco continue valorizando meu trabalho como ele sempre fez.
Você sempre demonstrou serenidade em seus 15 anos de carreira na tevê. Não se inquieta por ainda não ter feito uma protagonista na Globo?
Ainda não tive uma explosão como atriz, sabe? Mas nem sempre as protagonistas explodem. Quero uma personagem que me destaque. Quero casar a fome com a vontade de comer. A cada personagem vou galgando isso.

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