Apenas um ator no palco, imóvel. Um personagem de 500 anos. ‘‘A Tragicomédia de Calisto e Melibea’’, conhecida obra da literatura espanhola escrita em 1499, foi o ponto de partida para a Companhia Teatro Meridional recriar a história de Calisto, que agora revista os cinco séculos da existência de seu personagem e as transformações que recebeu nas mais diversas encenações da peça desde a Idade Média. A saga será levada ao palco do Teatro Zaqueu de Melo, hoje e amanhã, às 19 horas, com a apresentação do espetáculo ‘‘Calisto – A História de Um Personagem’’ no Festival Internacional de Londrina (Filo).
A companhia Teatro Meridional – criada por quatro atores da Espanha, Itália e Portugal – escolheu como fio condutor deste espetáculo o confronto entre personagem e o ator que o representa. ‘‘Ambos têm maneiras diferentes de ver o teatro. Calisto tem uma noção mais científica do que foi desenvolvido nesses 500 anos, enquanto o ator representa basicamente o teatro de hoje em dia’’, explica o protagonista Alvaro Lavín.
Para detalhar o processo de criação da montagem, Lavín conta que a obra original, escrita por Fernando Rojas no século 15, abordava temas como a fugacidade da vida, a eterna luta entre corpo e alma, o pudor e o desejo, antecipando obras bem mais atuais. O que a companhia fez foi estabelecer a saga de Calisto através do trabalho do dramaturgo Julio Salvatierra e do diretor Miguel Seabra, falando da história do teatro, a dos atores e relembrando a paixão por Melibea.
Na peça do Teatro Meridional, o velho e nostálgico Calisto narra histórias trágicas e cômicas envolvendo seu personagem. O espetáculo registra um diálogo de Calisto com o ator, tudo isso na pele do mesmo Alvaro Lavín. Nessa conversa, o ator encarna Calisto em diversas abordagens através dos tempos.
Calcada basicamente no trabalho do ator, a montagem busca refeltir sobre o ofício e a natureza da arte teatral. ‘‘Calisto conta uma história em que entram outros personagens, por isso não considero a peça um monólogo. É uma montagem cômica e, apesar do ator permanecer quase imóvel no palco, o espetáculo é muito dinâmico’’, antecipa.
O uso de uma linguagem cômica própria do grupo, na opinião de Lavín, está relacionada à maneira de seus integrantes entenderem a vida. ‘‘Para nós, teatro deve ser feito com prazer. Fazemos o que gostamos. Estamos longe de ser atores que se flagelam para fazer teatro. Daí vem o humor’’.
Para entender do que se trata, o público terá atenção especial na primeira parte do espetáculo, com duração total de uma hora. Quanto ao idioma, Alvaro Lavín avisa que a platéia não precisa se preocupar. ‘‘O ‘portunhol’ já é a língua falada entre o próprio grupo’’.
Os fundadores do Teatro Meridional se conheceram por acaso em 1991, na Itália. Depois da experiência comum em um estágio, o grupo resolver montar um espetáculo. Pouco tempo depois, estava formado o Teatro Meridional, que desde 1992 já montou oito espetáculos. Hoje, também estão integrados ao grupo artistas de outros países, como Argentina e Paraguai.
‘‘Calisto’’ estreou em outubro de 1997, em Portugal, e já foi apresentado na Bolívia, Equador, Chile, Uruguai, Estados Unidos, Espanha e Portugal. Além deste espetáculo, o Teatro Meridional apresenta no Filo (segunda e terça-feira, no Núcleo I) outra montagem: ‘‘ Qfwfq – Uma História do Universo’’. Depois de Londrina, o grupo segue Manizales, na Colômbia, e Buenos Aires, na Argentina.
•‘‘Calisto – História de Um Personagem’’, espetáculo da companhia Teatro Meridional (Espanha/Portugal/Itália). Com Alvaro Lavín. Texto: Julio Salvatierra. Direção: Miguel Seabra. Concepção/espetáculo, produção geral e desenho de luz: Teatro Meridional. Figurino: Marta Carreiras – realização: Ana Campos. Desenho gráfico: Susana Salerno e João Nuno Represas.

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