‘‘A gente cansa
mas faz tudo
de novo’’
Os pacatos moradores da Lapa de vez em quando são sacudidos pelas emoções de filmes rodados ali, em suas ruas antigas, enfeitadas pelos casarões centenários. Assim a cidade retorna, de tempos em tempos, ao horror vivido no final do século passado, quando foi cercada por tropas de soldados ensandecidos que lavaram de sangue seu solo.
Se por lado abrem-se as chagas, por outro os olhos se regalam com a presença de artistas de televisão. Herson Capri, que esteve ali rodando ‘‘Vítimas da Vitória’’, de Berenice Mendes, alguns anos atrás, voltou agora para ser o Barão do Serro Azul. Giulia Gam e Camila Pitanga vieram compor o elenco de notáveis. Nada, porém, que se compare ao frisson feminino de ver de perto o ator Danton Mello.
Nas cenas externas o público se comportava exemplarmente durante a gravação das cenas, mas terminada a encenação os gritinhos eram incontroláveis, para lá da faixa divisória.
Lenice Miranda Antunes, de 16 anos, Cristiane Santos Ferreira, de 15, Glaciane dos Santos, de 14 e Sandra Mara Cardoso Ferreira, de 19, tiveram melhor sorte. Foram escolhidas para ser figurantes, e enfiadas no figurino de um século atrás curtiam a exaustão de quase 12 horas de trabalho.
‘‘Estamos aqui desde as seis da manh㒒, contaram. O relógio marcava cinco da tarde. ‘‘A gente pensava que era fácil, filmava uma vez e estava resolvido. Eles repetem muito. A gente cansa mas faz tudo de novo, se tiver outro filme.’’
As garotas não perderam tempo: ao lado dos artistas tiraram fotografias, pediram autógrafos, deram beijinhos. ‘‘Não perdemos tempo.’’ O melhor de tudo para elas: ‘‘Ficamos pertinho do Danton.’’ Wagner José Gaida, de 16 anos, estudante de segundo grau, menos festeiro, aproveitou a experiência para aprender como se faz um filme. Depois desta ‘‘dá para pensar em fazer novela’’, revela.
Pau para toda obra, Solondir Ferreira, 42 anos, ouviu no rádio que a produção de ‘‘Sangue Azul’’ estava à procura de moradores da localidade que quisessem participar das filmagens. Não pensou duas vezes: cancelou futuros compromissos e foi se inscrever. Preencheu a ficha de número 1.
Esta é a primeira vez que vê uma câmera na sua frente. ‘‘Não fazia idéia como era filmar’’, contou, espantado. Os R$ 10,00 diários pela participação vieram a se somar para as despesas da casa. ‘‘Para comprar uma carninha e comer com a mulher já dá. Era de vir um filme seguido de outro.’’ Quando finalmente o trabalho chegar ao cinema, ele estará lá, acompanhando as cenas sem respirar. ‘‘Vou ficá de zóio em cima.’’ (Z.C.L.)

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