Entre o real e o virtual
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de setembro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoChristopher Lambert em Nirvana: memória utilizada como passarela entre universos paralelosMais interessado na supervisão dos últimos retoques em sua casa noturna Gitana, que deve inaugurar em São Paulo mês que vem, do que propriamente no destino comercial do filme, o ator Christopher Lambert chegou ao Brasil no início da semana como o principal trunfo da Columbia para a estréia de Nirvana, em lançamento nacional a partir de hoje (o filme está em cartaz em Curitiba no Cine Plaza e Cine Curitiba 3).
Exibido hors-concours na seleção oficial do 50ºFestival de Cannes, no dia 12 de maio, Nirvana não chegou a decepcionar a crítica, embora também não provocasse manifestações de entusiasmo. É mais ou menos arriscado, tentar situar este thriller de ficção-científica. Pode até ser uma homenagem a Curt Cobain, não assumida pelo diretor Gabriele Salvatores na coletiva que deu em Cannes, no dia seguinte à projeção. Como influências explícitas é possível citar os escritores Philip K. Dick e Ray Bradbury, Blade Runner e William Gibson, o pai da literatura cyber . Delírio futurista, labirinto plurissensorial, CD-ROM psicodélico, pesadelo cyberespacial. Há um pouco disto tudo em Nirvana - o título surgiu de uma idéia que o próprio Salvatores teve em Benares, na Índia, onde viu crianças jogando videogames ao lado de uma estátua de Shiva.
Universos paralelos A cidade possivelmente é Milão. A neve não pára de cair e quase já não se distingue realidade de virtualidade. O ano, 2005. Jimi Dini (Lambert) é criador de videogames para uma multinacional. Deprimido com sua última invenção, o jogo Nirvana, Jimi está consciente do absurdo de sua própria existência. Por outro lado, o jogo está ameaçado por um vírus e Jimi decide apagar tudo. Para isso, ele deve pôr as mãos numa cópia arquivada no banco de dados da multinacional. Não deixa de ser curioso que Gabriele Salvatores deixe o mundo ensolarado de seu filme anterior, Mediterrâneo (Oscar de melhor filmes estrangeiro em 93), para explorar o universo subterrâneo e artificial do cyberespaço.
Ao contrário das tentativas americanas no gênero, movidas à overdoses de efeitos especiais, Nirvana até que se orienta satisfatoriamente entre o tema e seu tratamento cinematográfico. Salvatores não decepciona quando se propõe harmonizar as ligações entre realidade e ilusão, entre criador e criatura, para isso utilizando a memória como passarela entre universos paralelos. Talvez não se compreenda sempre o que se passa na tela, mas o fascínio é evidente e irrecusável. Embora os personagens passem boa parte do tempo falando (e falam muito), o filme transmite a impressão de grande mobilidade. As imagens são serenamente ordenadas com a astúcia típica de quem manuseia clips, embaladas por uma pertinente música tecno-industrial.
E para quem, ao final, quiser uma extensão crítica e interativa do filme, existe um videogame disponível para compra que começa onde termina a história. A idéia do jogo é anular todas as memórias, tanto de Jimi como dos outros personagens. Segundo Salvatores, as soluções são muito difíceis e muito filosóficas. Elas se encontram nos livros de Calvino e Borges.
Nirvana (Itália/França/Inglaterra, 1997) - Roteiro e direção: Gabriele Salvatores. Fotografia: Italo Petriccione. Música: Mauro Pagani e Federico de Robertis. Com Christopher Lambert, Diego Abatantuono, Emmanuelle Seigner. 120 minutos.


