Prestando atenção a uma canção indígena, o ‘‘Lamento Bororo’’, a primeira impressão que se tem é de estranhamento, porque parece falso e ridículo alguém chorando cantado – é o que faz a voz do jovem índio –, mas também é a melhor maneira de não se deixar envolver por aquele som que pode te levar ao choro também, sem mesmo ter razão para isto. É engraçado, aos poucos aquilo vai penetrando o espaço no ambiente e o choro-música acaba por se transformar em uma moldura através da qual cada coisa passa a ganhar um sentido que antes não tinha, iluminando de tristeza cada coisa ao seu redor.
Em nossa cultura, um paralelo exemplar com o ‘‘Lamento Bororo’’ é a peça escrita para piano, 4’33’’, de Jonh Cage (1912-1992), em que ele simula durante quatro minutos e trinta e três segundos atacar o teclado do piano sem o fazê-lo. Passada toda a sensação do ridículo que a cena possa causar, passado todo estranhamento de alguém em frente ao piano para tocá-lo, sem tocá-lo, o ouvinte começa então a perceber o som que vem do entorno: o barulho do trânsito, o funcionamento das máquinas, a conversa das pessoas, o ruído das cadeiras, o som da própria respiração. É isto! O artista não está preocupado com a peça. Ele quer te levar a perceber as coisas em volta, colando sobre a realidade uma pele de sonhos, um filtro poético para dar significado ao mundo.
Foi essa a sensação causada também pelo trabalho apresentado pela artista Janet Cardiff na 24ª Bienal de São Paulo, em 1998. Com um simples walkman nos ouvidos, o público era orientado a fazer um percurso saindo do prédio da Bienal e caminhar por um certo trecho do Parque do Ibirapuera. Conduzido pela voz da artista, aos poucos o participante ia sendo envolvido por uma narrativa misturando ficção com a realidade do lugar explorado; um som de carro que não se via, um canto de pássaro que não estava ali, embora a sensação fosse absolutamente real. E o resultado, como se a realidade se tornasse, subitamente, um sonho vivenciado.
Não menos precisa foi a obra que o artista carioca Eduardo Coimbra instalou no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro este ano. Feita apenas com tiras de fita adesiva, elas formavam uma cortina entre a paisagem exuberante do lado de fora do museu e a transparência da fita gomada voltada para o lado das janelas, como que grudando a vista que daquele lugar se tinha. Um trabalho que guardava a memória do ambiente, retendo a poeira que se acumulava do lugar, fios de cabelos, pequenas sujeiras, paisagem e história. Sensação e percepção da realidade ao mesmo tempo.
Outro trabalho que merece ser mencionado dentro desse grupo, foi realizado em Antonina, em julho deste ano, no Festival de Inverno da Universidade Federal do Paraná, em oficina coordenada por Newton Goto. A ruína de um antigo armazém portuário foi envolvida por uma gigantesca rede de pescadores, como se fosse uma teia de filtrar sonhos maus, como uma peça que algumas tribos indígenas criam com fins rituais. Tanto por fora como por dentro da velha edificação uma sensação de magia contaminava o ambiente.
Pele, skin, entorno, entre, através, membrana, véu, janela, passagem, fímbria, filtro, palavras que nos remetem ao seu entorno, que resgatam a idéia de contexto, que tornam possível o estabelecimento de relações entre partes distintas. Aqui, no caso, entre arte e vida. Expressão e cotidiano. Sonho e realidade.
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