Entre o medo e o desejo
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de setembro de 2013
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
A partir de um trecho de um documentário sobre a preservação ambiental, que dizia que "destruímos o essencial para produzir o supérfluo", o diretor Fernando Nicolau se viu incomodado com a ideia de intervir naquilo que é natural. Acostumado a realizar intervenções urbanas no Rio de Janeiro dentro de um grupo de pesquisa com outros estudantes da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro, ele acabou aprofundando o trabalho, o que resultou na formação do Massa Grupo de Teatro. Em Londrina, eles apresentam sua primeira montagem - "Capivara na luz trava" - amanhã e quarta-feira, às 20 horas, na Divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura UEL, após estreia bem-sucedida no Rio de Janeiro, no final do ano passado, no Teatro Gláucio Gill.
Com dramaturgia de Fernando Nicolau e Juan Guimarães e supervisão dramatúrgica da psicóloga e psicanalista Viviane Mosé, a montagem tem como proposta apresentar uma fábula amoral sobre os desejos e medos humanos por meio da linguagem do teatro-dança. Abrindo mão das palavras, tantas vezes esgotadas no processo de comunicação do cotidiano, a ideia é por meio do movimento acionar "estados de sentimentos" no espectador. "A montagem é fruto de mais de um ano de trabalho e lida com o que chamamos de musculatura emocional, que traz a ideia de que o nosso corpo é cheio de mapas, memórias, e que cada ponto aciona uma emoção, ou melhor, um estado de sentimento", explica Nicolau, em sua primeira direção profissional.
No espetáculo, seis intérpretes representam um dia na vida de uma família que em uma situação extrema vê de perto a finitude de sua existência. Radicada em uma aldeia em cujo solo cultiva melões para alimentar seu rebanho de capivaras, essa família vê a sua rotina se transformar radicalmente após a chegada de um estrangeiro. Símbolo da invasão do meio urbano no ambiente rural, o surgimento desse elemento coincide com a devastação de toda a plantação por uma chuva torrencial. "A capivara nos lembra da fragilidade dos animais e de que realmente eles ficam paralisados, acuados, quando se deparam com algum tipo de luz estranha", pontua o diretor.
Sobre a contribuição do trabalho de Viviane Mosé, ele conta que foi fundamental para promover no grupo um questionamento dramatúrgico e colaborar na construção dos personagens dentro de uma dialética provocativa. "A sensação que eu tenho é de que as construções humanas estão muito associadas a uma linguagem mastigada, talvez por influências das novelas e telejornais, e quando tiramos essa linguagem mais conhecida, o movimento e o corpo ganham vários significantes e é isso que queremos proporcionar. Somos uma companhia nova, mas tempos um trabalho profundo de pesquisa de linguagem fundamentada no movimento", destaca Nicolau.


