Entre o mágico e o popularesco
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terça-feira, 10 de junho de 1997
Danielle Brito Especial para a Folha2 
Milton DóriaA montagem serve de comemoração aos 10 anos da companhiaAo completar 10 anos de estrada, a Companhia de Teatro Armazém de Londrina estréia hoje, às 21 horas, no teatro Zaqueu de Melo, o espetáculo Sob o Sol em Meu Leito Após a Água. O texto, escrito a quatro mãos pelo diretor Paulo de Moraes e pelo poeta e tradutor Maurício Arruda Mendonça, fala de uma disputa familiar conturbada por três trapaças. A narrativa é popular, com toques místicos que os autores foram buscar no épico indiano O Mahabharata, um clássico secular escrito em sânscrito, mais antigo do que a Bíblia.
Para Paulo de Moraes, a idéia não é muito surpreendente. A montagem utiliza pontos de contato entre o mágico e contos popularescos. Eu queria transportar fragmentos desta obra para uma realidade mais próxima. No épico religioso, os personagens descendem dos deuses. Queria que os personagens fossem mais próximos- conta.
Para escrever o roteiro de Sob o Sol, os autores se debruçaram sob uma versão completa em inglês de O Mahabharata, com cinco volumes, e outra em italiano com três volumes. Fomos procurar alguns elementos que o Paulo queria trabalhar. A história de um dos protagonistas é bem ligada à obra. O ator passa a narrar histórias míticas com uma forte ligação com o sertão- adianta Maurício.
A estrutura nada linear do espetáculo também trapaceia com o público. É que a peça não deixa referências claras de tempo e espaço. Ou seja, é atemporal. Não é o agreste nordestino, não é o pampa gaúcho, não é o sertão de Minas. Mas pode ser tudo isso- diz.
A localização dos fatos passa a ser parcialmente definida pela estética e linguagem do espetáculo. O espaço é determinado pela fala dos personagens e pelo cenário- avisa o cenógrafo Gelson Amaral que já assinou o cenário da montagem anterior do grupo, Out Cry. O figurino, feito de retalhos, tecidos indianos e panos envelhecidos, também conserva traços da aridez do sertão. As roupas das mulheres têm mais o tom do popular brasileiro. Já as dos homens tem um maior prisma teatral, diz João Marcelino, figurinista da peça.
A trilha sonora original de Sob o Sol... foi criada pelo compositor e instrumentista Marco Scolari, que se utilizou de acordeon, percussão, violão, teclado, bateria e até mesmo computador para compô-la. São 27 inserções na 1h40 de duração de todo o espetáculo.Para mim é um espetáculo rústico, seco. Fui por aí, explica o músico.
LongevidadeO espetáculo, co-produzido pelo Centro Cultural Teatro Guaíra, tem no elenco Patrícia Selonk, Narlo Rodrigues, Simone Mazzer, Simone Vianna, Simone Andrade e Ricardo Grings. A maioria dos atores trabalha junto há anos e, daí, o entrosamento e a longevidade do Armazém. Essa estabilidade também se reflete no destaque que as últimas montagens do grupo têm alcançado em nível nacional.
O diretor Paulo de Moraes elege Périplo, o Ideograma da Obsessão (89), A Ratoeira é o Gato (93), A Tempestade (94, que contou com a participação de Paulo Autran) e Out Cry (97) como marcos da trajetória da companhia. A diferença de estilos e autores destes textos também faz parte do caminho seguido pelo grupo. Nunca me prendi a uma linha. Acho que existe uma questão temática importante no meu trabalho. Os personagens com os quais eu lido têm sempre uma impossibilidade de alcançar o que querem. Esse é um tema recorrente- avalia Paulo.
De acordo com o diretor, depois do destaque conquistado com A Ratoeira é o Gato - prêmio Mambembe de melhor atriz para Patrícia Selonk -, a companhia consegue levar seus espetáculos com mais facilidade aos grandes centros.Temos um público bom, mas queremos conquistar públicos maiores. Não se pode depender de Londrina como mercado- analisa.
Após a temporada em Londrina, Sob o Sol... segue para temporada no Rio de Janeiro, entre os meses de agosto e setembro, no Teatro Glória. Em janeiro de 98, o grupo segue para São Paulo onde se apresenta no Centro Cultural São Paulo.
O espetáculo Sob o Sol... tem o patrocínio do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, Sercomtel e Secretaria Municipal da Cultura , além do apoio do Ideal Plaza Hotel, Cantina da Mamma, Tompsom Áudio Estúdio, Self-Service Por Kilo, Scrett Academia, Empresa Til, Coca-Cola, LPR, Unimed-Londrina, Gearte, Cariza e Folha de Londrina.
q Sob o Sol em Meu Leito Após a Água - De 11 a 29 de junho, de quarta a domingo, às 21 horas, no Teatro Zaque de Melo, em Londrina. Ingressos a R$ 10,00, de quarta a sexta-feira. Sábados e domingos, R$ 12,00.


