Entre o luto e a Lua
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de outubro de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
Meu pai jamais foi espectador assíduo. Mas tinha seus heróis, mocinhos e bandidos, suas deusas e seus títulos de cabeceira. Foi conhecendo e gostando do cinema enquanto cresciam ambos. Mas do que meu pai gostava mesmo era da conquista espacial, não da ficção cientifica, mas do céu congestionado por satélites, das engenhocas e da parafernália e dos verdadeiros mochileiros das galáxias. Foguetes e naves, com seus assombrosos efeitos e defeitos especiais, suas glórias e fracassos. Meu pai era, literalmente, um siderado.

O céu com seus mistérios era o limite infindável, ilimitado, que ele trazia na bagagem, orientado pelo francês Camille Flammarion, o vulgarizador da astronomia. Em 21 de julho de 1969, diante da tevê, ele com toda certeza surtou quando Armstrong & Aldrin deixaram as pegadas pioneiras. Sei disso porque eu também vi, em imagens precárias na retransmissão ao vivo pela Rede Globo. Fim do prólogo.
Não vou me ater à facção da 'nova' crítica que recebeu "O Primeiro Homem" a pedradas na abertura do Festival de Veneza, há dois meses: pouco compreensiva, foi incapaz de oferecer uma análise mais profunda sobre o filme, chamando-o inclusive de 'falido'. Depois, na estreia nos Estados Unidos, nova onda de incompreensão, revelando uma atitude cada vez menos aberta à experimentação e à análise objetiva, salvo exceções. Essas opiniões deram as costas à elaborada indagação, profunda, que o filme propõe quando se debruça sobre um homem em seu intento de libertação.
Sim, porque aconteça o que acontecer, chegue onde chegar, ele, Neil Armstrong, estará sempre condenado a um confinamento sem saída.
Se "First Man" não oferece uma estética brilhante, ofuscante, é porque não tem que ser. É a história do primeiro homem que pisou na Lua, nem grandiloquente e nem portadora de grandes efeitos. Evidentemente foi planificada para evitar grandes arrebatamentos visuais, tendo optado por primeiros planos próximos ao protagonista e também a quem o cerca. O foco é sobre o homem que tornou possível concretizar um sonho, uma promessa, uma redenção ou o encontro com a vida em meio à morte que o persegue - da filha pequena, dos colegas. Mas, uma vez no céu, na Lua, não há nada além de vazio, de silêncio.
O início é claro nesse aspecto: o rosto do homem angustiado porque voando enclausurado no cockpit de um X-15 (avião-foguete de velocidade hipersônica, ícone dos anos 1950), incapaz de dominar o aparelho. Ele só ouve ordens a partir da Terra, o ofegar, as vibrações e ruídos (quase parecem rugidos) de um artefato que parece se rebelar contra o homem, ao não aceitar o controle que tenta exercer o piloto. O homem e a máquina. O esforço e o sucesso, ou o fracasso. Na cena final, Armstrong aparece encerrado numa espécie de prisão. Aparentemente ele triunfou como o primeiro homem a alcançar a Lua, mas agora , no confinamento forçado pela quarentena que deve cumprir, ele é como um prisioneiro, incapaz de se libertar de sua culpa. Ele não se sente satisfeito por ter chegado primeiro àquela Lua que viu com sua filhinha atacada pelo câncer que a matou. A presença dele atrás do vidro que o separa de sua mulher Janet supõe algo mais que uma abordagem física. Pelo contrário, é a dificuldade de manter um casamento fraturado por uma morte que não pode ser esquecida.
Pode ser que o filme irrite quem goste e espere jogos pirotécnicos, já que não fala de heroicidades, patriotadas ou da grande façanha de primazia dos Estados Unidos na Lua. Salvo uma ou outra referência discreta, embora real (a mulher francesa que fala da grandeza dos Estados Unidos), o filme, intimista e pausado, fala de outros temas. Da solidão, das relações e disfunções familiares, de amores e desamores, de fracassos e mortes, da culpa e da tentativa de redenção. O luto, a dor pela filha, é o que permite a Neil chegar à Lua, vencendo a morte para poder ali deixar para sempre a pulseirinha dela, uma forma de romper com o passado e unir-se à vida. Por trás do feito grandioso e do heroísmo, não existe algo mais que o intento do protagonista de tornar possível sua própria missão pessoal.
Chazelle dá forma a seu filme, com ótimo roteiro de Josh singer ("Spotlight"): ao falar de uma história pessoal, ele recria o tempo mostrando (discretamente) o confronto russo-americano na corrida espacial - o principal não é alcançar uma conquista para a Humanidade, mas ir à frente do outro país - as manifestações contra a evidência social, o conflito racial, a vida familiar com suas tensões e uma espera ecoada na angústia. O lado de reconstituição documental é primoroso: o avanço tecnológico se fez de ciência, teimosia, dor, luto e geringonças. Dá para sentir cada solavanco daqueles cavalos de ferro espaciais, os sons, os rangidos, o suor, as lágrimas, a fúria.
A sombra boa de Kubrick, claro, está presente em várias homenagens. Ryan Gosling e Claire Foy, excelentes.
E meu pai teria gostado. Muito.


