Entre o humor e a ironia
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quarta-feira, 27 de agosto de 1997
Kelly Velasquez France Presse 
Arquivo FolhaWoody Allen: Todos vão achar que eu falo de mimO pedido para ser julgado por sua arte e não por sua tumultuada vida sexual, é a mensagem irônica, cheia de humor e truques fantásticos do novo filme de Woody Allen, Desconstructing Harry, que abriu ontem a 54ª Mostra Internacional de Cinema de Veneza.
Todos vão achar que eu falo de mim, disse o diretor nova-iorquino em uma entrevista ao Corriere della Sera, feita nos Estados Unidos, que descreve com seu clássico estilo cômico e sério ao mesmo tempo, a vida criativa e erótica de Harry, um escritor de sucesso, mas ao mesmo tempo um homem impossível, mesquinho e egoísta.
Allen, que não esteve presente na estréia mundial de seu filme em Veneza, apresentado fora do concurso durante a abertura oficial da mostra, tem uma certa queda pelo público europeu, que sente intelectual e culturalmente mais afinado.
As aventuras sentimentais de Harry, divorciado várias vezes, incorrigível marido infiel, amante das prostitutas, se cruzam com vários truques cinematográficos, frases sofisticadas, cenas surrealistas e a vida de personagens literários.
Voltou o Woody Allen dos primeiros anos, de filmes como A Rosa Púrpura do Cairo (1985) ou Tudo o que Você Sempre quis Saber sobre Sexo e Nunca Teve Coragem de Perguntar (1972), afirmou o diretor da mostra, Felice Laudadio.
Não falta no filme a sátira e a crítica à cultura judaica nova-iorquina, o caldo onde cozinha sua complicada vida afetiva, assim como a de seus personagens, que sentem pertencerem a uma sociedade, a norte-americana, que não foi feita para eles e ainda menos para um judeu intelectual, como Woody Allen ou Harry.
Divã Numerosas e até fáceis são as ocorrências e o sarcasmo político: É possível que eu queira me deitar com todas as mulheres que eu vejo? É possível que não posssa ser uma pessoa séria, como por exemplo o presidente dos Estados Unidos? Não, não, o exemplo não foi bom, comentou Harry com sua imprevisível psicanalista.
Ela significa a presença feminina no filme. A primeira de uma longa lista de atrizes que vai de Mariel Hemingway a Demi Moore, razão pela qual enviou como emissárias a Veneza as duas fantásticas protagonistas Elisabeth Shue e Kirstie Alley.
Frases agudas, situações erótico-sentimentais extravagantes, a obsessão pela falta de criatividade que o angustia, permitem definir seu filme como uma comédia humorística até um tratado freudiano sobre o homem e o artista.
Woody Allen não teme falar à sua maneira, com ironia e astúcia, de si e de sua curiosa vida particular com sua nova companheira, Soon Yi, a filha adotiva de sua ex-esposa e que aparecerá pela primeira vez no documentário de Barbara Kapple, dedicado à viagem européia de Allen como clarinestista e que será projetado hoje.
Com o mesmo sentido do humor, com suas fraquezas e medos, Allen se mostra ao lado de sua jovem companheira sem disfarces, em suítes luxuosas de hotéis ou conversas íntimas e familiares, com sua irmã e seus pais, meio são e meio louco, mas sempre brilhante, assim como ele é.


