A segunda noite do Free Jazz em Curitiba foi bastante singular, dividindo-se entre o formalismo de Wayne Shorter e a mistura de soul com muito barulho de Ben Harper. Assim como na primeira noite, no domingo, a segunda-feira teve admiradores para cada atração. Uns estavam lá para ver o jazz mais conservador, enquanto outros procuravam o lado pop da mostra.
Coube ao ‘‘pai do fusion’’ e fundador do Weather Report fazer o espetáculo mais clássico da fase curitibana do festival. Numa apresentação quase intimista propiciada pelo teatro mais acolhedor do que os das outras apresentações pelo Brasil, Wayne Shorter deu aulas de instrumentação e harmonização em jazz.
Marcelo Dallegrave/DivulgaçãoWayne Shorter fez um show clássico dando ‘‘aulas’’ de instrumentação e harmonização em jazzAlém da tradicional parceria que fazia com o guitarrista David Gilmore, revezando os solos e fazendo alguns desafios, a surpresa da noite foi o diálogo traçado entre o piano de Jimmy Beard e a excelente bateria de Terri Carrigton. Por vezes era o baixo (Ira Coleman) que marcava o ritmo enquanto a baterista ficava ‘‘conversando’’ com o piano, como se montasse frases musicais entre caixas, bumbos e pratos.
A baterista Terri Carrigton, pequena, escondida atrás da bateria, foi o destaque entre os músicos que acompanhavam Shorter. Seu entrosamento com o pianista era tanto que por vezes Beard, com toques vigorosos, percutia no piano, flertando com a bateria.
Shorter começou tímido, mas a boa acolhida da platéia fez ele se soltar. Tocou apenas seis músicas e mais um bis. Destas, destaque para a tristíssima ‘Meridien Woodsylph’’, toda em tom menor, e para ‘‘Aung San Suukyi’’, uma homenagem que fez a uma mulher com este nome.
No intervalo entre os shows de Wayne Shorter e Ben Harper, enquanto o palco era preparado, a equipe do guitarrista americano acendeu vários incensos. Pareciam estar preparando o terreno para a aparição do ‘‘Zen’’ Harper.
O guitarrista começou mesmo em ritmo lento, sozinho ao violão, dando a entender que seria quase um show acústico. Mas aos poucos a coisa começou a esquentar.
Já na quarta música, ‘‘Gold To Me’’, uma levada reggae com soul, o som chegava em ondas que embalavam o público - curitibano dança sentado na cadeira. Harper estava acompanhado do grupo The Innocent Criminals, do qual o grande destaque é o eletrizante baixista Juan Nelson, que já tocou com James Brown.
E foi do baixista um dos pontos altos do show, na música ‘‘Fight For Your Mind’’, um eletrizante funk, com um maravilhoso solo de Nelson. Ele com seu corpanzil fazia o baixo parecer um cavaquinho e o dominava amplamente, com o público indo à loucura.
Para acalmar a galera, Harper tocou ‘‘Forever’’, um dos seus hits acústicos e continuou com alguns exemplos de seu soul que em muito lembra Isaac Heyes, com direito a isqueirinhos sendo acendidos pela platéia. Mas foi só para enganar.
Para terminar, as duas músicas escolhidas foram ‘‘Teh Will To Live’’ e a clássica ‘‘Woodoo Chile’’, imortalizada por Jimi Hendrix. O barulho tomou conta do show com o noise rock em performances brilhantes de todo o grupo. Em ‘‘Woodoo Chile’’, por exemplo, foi excelente a citação de ‘‘Machine Head’’, do Deep Purple.
O povo foi à loucura e não parou de gritar até que Harper voltasse ao palco. Malandro e experiente, mesmo com apenas 28 anos, para aclamar a platéia, fez um número bastante intimista, sozinho ao violão. Grande.
Depois deste breve aperitivo do que é o Free Jazz em sua versão integral, apresentado em São Paulo e no Rio de Janeiro, os curitibanos que tiveram quatro ótimas apresentações, esperam ver o festival um pouco mais completo no ano que vem, desde que a crise da globalização assim o permita.

mockup