Há espaço para discutir temas sérios no principal produto de entretenimento brasileiro, as telenovelas. Pelo menos os autores das tramas pensam assim e, dessa forma, conseguem atingir dois objetivos: passar informações relevantes para o público e fazer merchandising social. É por isso que em muitas tramas, vira e mexe, aparece uma doença. Os folhetins atuais têm um grande número de personagens adoentados. E da Aids à leucemia, do câncer à esquizofrenia, são vários os ganchos ''médico-dramatúrgicos'' que os autores podem usar para pendurar mais história. Em ''Três Irmãs'', nova novela das sete da Globo, Antonio Calmon aproveita uma médica entre as personagens principais para falar da saúde da mulher. ''Se a doença não estiver de acordo com a trama, fica artificial e chato. Giovanna Antonelli será uma ginecologista, então tem tudo a ver eu falar de HPV e câncer de mama'', defende Calmon. No decorrer dos capítulos, a personagem Neusa, de Malu Valli, descobrirá um caroço nos seios.
Calmon está longe de ser o único a fazer um alerta sobre doenças na ficção e, de quebra, angariar a emoção do telespectador. Na Band, Marcos Lazarini optou por incluir o Mal de Alzheimer em sua novela ''Água na Boca'', por meio da personagem Maria, de Berta Zemel. O autor já havia escrito um documentário sobre o assunto e ficou perplexo com o crescimento do problema no Brasil. Em meio ao vasto universo de temas trabalhados em um folhetim, ele acredita que há espaço para discussões mais complexas. ''Tenho de conciliar a informação com a emoção. A doença está inserida em um contexto em que posso explorá-la narrativamente''.
Mesmo nas produções voltadas para o público jovem, que é atraído mais facilmente por novelas repletas de ação e de aventura, a inserção de discussões delicadas pode funcionar. Patrícia Moretzsohn, uma das autoras de ''Malhação'', apostou nessa ferramenta ao tornar paraplégico o personagem Bruno, de Caio Castro. No ambiente do colégio e durante as aulas de Educação Física, por exemplo, ela conseguiu falar de maneira natural sobre a importância do esporte na vida dessas pessoas mostrando, inclusive, aqueles que se transformam em paratletas. Na opinião de Patrícia, os adolescentes estão abertos a também ver drama na tevê. ''Só é preciso equilíbrio. E na ficção a abordagem desses assuntos não tem o compromisso do jornalismo, deve ser uma forma de reflexão'', acredita a autora.
Mas há quem transforme suas novelas em verdadeiras campanhas sociais. Glória Perez é uma autora marcada por essa característica. Já falou sobre a doação de órgãos em ''De Corpo e Alma'', sobre a deficiência visual em ''América'' e, em sua próxima novela das oito, ''Caminho das Índias'', com previsão de estréia no início do ano, vai tratar da esquizofrenia. ''Gosto de dar voz a quem não tem'', resume a autora, que deve inserir depoimentos reais de pessoas que têm doença mental ao final dos capítulos. Bem ao estilo de ''Páginas da Vida'', de Manoel Carlos, outro que invariavelmente insere algum problema de saúde em suas histórias. ''Para a maioria dos telespectadores o que vale são as intrigas, o romance e as separações dos casais. Mas eu sempre elejo uma doença para abordar. Através da novela a gente alivia o preconceito'', aponta o autor. Um personagem dele, protagonizado por Carolina Dieckmann, criou um dos momentos mais marcantes da teledramaturgia brasileira em ''Laços de Família'' ao raspar a cabeça em frente às câmeras durante um tratamento de quimioterapia.
Para os atores que interpretam pessoas doentes em novelas, a oportunidade de alcançar mais visibilidade é sempre maior em meio a tanto drama e polêmica. Em ''Chamas da Vida'', da Record, a Aids volta a ser assunto com o bombeiro Guilherme, de Roger Gobeth. O ator sente o peso da responsabilidade de tratar do assunto na tevê. ''A gente vai mostrar que hoje as pessoas conseguem levar a vida com a doença. Mas é um baque. Quem não viveu a década de 80, que foi trágica, não se cuida tanto. É importante levantar essa discussão.''

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