ENTRE O DRAMA E A COMÉDIA
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Gramado
Especial para a Folha2
Se a intenção dos organizadores do 27º Festival de Gramado era compensar a falta de recursos e a consequente contenção com uma mostra que pouco ou nada ficasse a dever às habituais exigências da crítica, o objetivo vai sendo plenamente atingido. Mesmo com alguns tropeços no espaço reservado aos curtas-metragens, o nível de quase excelência vem se mantendo. Para isso também contribui a circulação de títulos inspirados que compõem as Premieres Gramado 99, a principal manifestação paralela de todas as tardes. Fora de concurso, em primeira exibição nacional e já com distribuição comercial garantida em telas brasileiras, filmes como o espanhol Tango, de Carlos Saura e o americano The Hi-Lo Country, de Stephen Frears, justificam a inclusão e permanência desta variante fora de concurso.
Na série homenagens, um triplo reconhecimento no palco do Palácio dos Festivais com o descerramento simbólico de placas. A família Massaíni, representada pelos irmãos Anibal e Osvaldo, foi lembrada pelos 50 anos da Cinedistri, uma das mais famosas e resistentes produtoras e distribuidoras de filmes (o mais ilustre é O Pagador de Promessas, nossa única Palma de Ouro em Cannes, versão 62) e cinejornais exclusivamente brasileiros. Também foram lembrados os cineastas Denoy de Oliveira - vencedor de Gramado-84 com O Baiano Fantasma - e Milton Barragan, responsável pelos maiores sucessos populares do cinema gaúcho em território nacional: os filmes com o cantor Teixeirinha, entre eles o hit Motorista sem Limites.
Gratíssima surpresa, proporcionada por uma cinematografia que a rigor não pode nem ser chamada de emergente - em números, a produção do país é irrisória, algo assim na faixa de dois, no máximo três longas ao ano.
Por isso, e por dezenas de outras razões latinas, El Dia que Murió El Silencio, de Paolo Agazzi, é para ser saudado com entusiasmo. Comédia frequentemente cortejando o drama, o filme não esconde seu engajamento alegórico ao narrar a história de um comunicador itinerante, uma espécie ladina de mascate de ilusões que chega a uma pequena e atrasada - vale a redundância - cidade do interior boliviano, e ali instala uma sui generis Rádio Nobleza, emissora comunitária movida a gerador - a energia elétrica jamais chegou a Vila Serena - e pelo cocoricó do melhor e mais estridente galo da região. Aos poucos, o insólito serviço de recados de todo tipo, dedicatórias, declamações, declarações, reclamações, revelações e a transmissão de músicas em gravações variadas, todas com endereço certo, desperta o interesse da população e acaba provocando escândalos de toda ordem. Isto tudo é narrado do ponto de vista de um escritor habitante da vila, que cria este universo ficcional sempre acompanhado de perto pelo espectador.
O argumento-roteiro do diretor Paolo Agazzi vem recheado de informações imediatamente perceptíveis para efeito de dramaturgia de momento, mas é enriquecido ainda com um subtexto onde se encaixam com rara propriedade as características de uma latino-América atrasada e sonolenta. A galeria de tipos e fatos é comum aos confins do continente, é matéria-prima para a manipulação político-social, é adubo precioso para o caudilhismo e a ditadura. A conclusão é saudável - o repúdio a qualquer forma de envolvimento tutelado é sempre possível. Com bom senso, Agazzi soube evitar a fórmula já desgastada do realismo fantástico, somente cedendo à tentação, de certa forma justificada, ao definir o destino do escritor. Um show à parte é proporcionado pelo ator argentino Dario Grandinetti, que já levou o Kikito de melhor ator em Gramado-93 pelo trabalho em El Lado Oscuro del Corazón, de Eliseo Subiela. Tem tudo para repetir a dose.
Sem desmerecer o digno, corretíssimo concorrente português, o que se questiona apenas é a idade avançada do filme - a produção é de 1997.
O diretor Leonel Vieira, que passou rapidamente por Gramado sem tempo para debates ou entrevistas, já realizou dois outros longas depois de A Sombra dos Abutres , seu filme de estréia, e está realizado mais um.
Thriller político de ação, que tem no Costa-Gavras de Z, Estado de Sítio e Missing o expoente mais bem acabado, A Sombra dos Abutres captura em imagens belíssimas o drama de Portugal sob a feroz ditadura do dr. Antonio Oliveira Salazar. O ano é 1962, e a permitida referência internacional na censurada transmissão de rádio é a morte de Marilyn Monroe. Em Trás-Os-Montes, os trabalhadores nas minas são reprimidos com violência pelos agentes da temível PIDE - Polícia Internacional de Defesa do Estado.
Daniel, mineiro rude e de poucas falas que luta por melhores condições de trabalho, faz a rota de fuga em direção à fronteira com a França. Sobre sua cabeça paira constantemente a sombra dos abutres. O diretor Vieira não desmerece o modelo de Gavras e constrói o jogo de gato-e-rato com segura noção de timing dramático, sem folgas ou deslizes. Como obra pensada para o cérebro e os sentidos, A Sombra dos Abutres em nenhum momento decepciona.





