Giordani Rodrigues
De Curitiba
Especial para a Folha2
O Teatro do Paiol será palco, hoje e amanhã, às 21 horas, de um encontro inusitado entre o clássico e a vanguarda. Virgílio, Camões e Bach dividem espaço com vídeos experimentais e performances cênicas, no projeto intitulado ‘‘Ao Redor da Mesa’’, organizado pelo ator Mauro Zanatta e pelo músico Octávio Camargo.
São seis trabalhos bastante diversos, alguns já premiados em festivais nacionais e internacionais, reunindo artistas, produtores e apreciadores de arte de Curitiba. O projeto conta com o mérito de ter sido produzido sem nenhuma forma de patrocínio, apenas com o esforço pessoal dos envolvidos.
Os vídeos ‘‘Brasil Maravilha’’, de Aleksei Abib, e ‘‘Ariel’’, ‘‘Luzes’’ e ‘‘Tati’’, de Fernando Kinas e Marina Willer; a peça de teatro musical ‘‘A Dois’’, de Tim Rescala; a performance musical ‘‘Os Lusíadas’’, de Octávio Camargo; as apresentações inéditas de ‘‘Ao Redor da Mesa’’, de Octávio Camargo e Rafael Carletto e ‘‘Os Portentos do Ano 44 a.C.’’, texto de Virgílio traduzido por Jaques Brand, formam uma interessante miscelânea entre o mundo antigo e o contemporâneo, intercalados em busca de novos significados. Leia abaixo um resumo de cada obra.
Ao redor da mesa – O evento é definido pelos autores como um ‘‘objeto cênico’’. Em meia hora, os atores Mauro Zanatta, Christiane Macedo, Pita Belli, Eliane Campelli, Lori Santos e o próprio Octávio exploram diálogos possíveis com linhas temáticas distintas – religião, culinária, futebol, guerra, funeral e política – entremeadas de pausas ou simultaneidade das vozes. Depois de um estranhamento inicial, o espectador acaba pinçando trechos das conversas, muitas vezes poéticas, e formando seus próprios significados, num processo de intertextualidade com a obra. Um trabalho experimental que explora tempos cênicos pré-determinados, mas com resultados diferentes a cada apresentação.
Brasil Maravilha – Aleksei Abib inspirou-se na peça ‘‘Alice Através do Espelho’’, grande sucesso de público, para criar este vídeo digital totalmente independente. Em dois minutos, a atriz principal de ‘‘Alice’’, Maíra Weber, interpreta uma mulher às voltas com as situações mais absurdas, sem jamais desistir de resolvê-las, nem que para isso tenha de, literalmente, trocar os pés pelas mãos. O diretor tenta criar uma metáfora entre os problemas enfrentados pela personagem do livro de Lewis Carroll e o cotidiano de milhões de brasileiros, obrigados a se ‘‘virar’’ como podem no dia-a-dia, daí o título ‘‘Brasil Maravilha’’. O filme já participou de diversos festivais nacionais e internacionais. Em junho, além de receber o prêmio de melhor vídeo experimental no 22º Festival Guarnicê, no Maranhão, foi escolhido como único representante da América Latina a participar da mostra de 15 trabalhos digitais de todo o mundo, apresentados na D. Art 99, em Sydney, na Austrália.
FN27>Ariel, Luzes, Tati – É uma trilogia de vídeos experimentais com cerca de um minuto cada, criados pelo diretor teatral Fernando Kinas e pela cineasta Marina Willer em épocas diferentes, mas com uma temática comum: o movimento que objetos inanimados podem adquirir, formando sequências bem-humoradas, ambientadas em diversos estilos musicais. Em ‘‘Ariel’’ (o espírito dos ventos em ‘‘A Tempestade’’, de Shakespeare), ‘‘Tati’’ (em homenagem às gags visuais do humorista e diretor de cinema francês Jaques Tati) e ‘‘Luzes’’ (as próprias), sacos passeiam guiados pelo vento ao som de jazz, luzes de natal sambam com Paulinho da Viola ou estremecem com o rock do Sepultura, um vibrante pager se suicida, caindo da mesa, uma torradeira ganha vida ao som de big bands dos anos 50. Os filmes foram exibidos, entre outros, no Institute of Contemporary Art, de Londres, Fondation Cartier, de Paris, e premiados em diversos festivais.
A Dois – Nesta peça musical do conhecido arranjador Tim Rescala, um casal conversa e briga pela programação de um canal de TV. Apesar de não ser uma comédia, a tônica da peça é o bom humor, retirado de situações cotidianas e ampliado pelas interpretações de dois homens fazendo as vezes do casal – os músicos Paulo Demarchi e Berchon Dias, do grupo Contempo Sonoro, tocam vários instrumentos de percussão.
Os Lusíadas – As primeiras doze oitavas do Canto I do poema épico de Luís de Camões são declamadas sobre o prelúdio da suíte ‘‘BWV 1006’’ de Johann Sebastian Bach, tocada ao violão por Octávio Camargo. O resultado é muito agradável. Duas obras antigas, mas que estão na base de formação da cultura contemporânea.
Os Portentos do Ano 44 a.C. – Parte final do Livro I das ‘‘Geórgicas’’, do poeta latino Virgílio, escrita em 29 a.C., traduzida pelo jornalista e escritor Jaques Brand, e declamada por Octávio Camargo. Virgílio aproveita-se de um tratado sobre agricultura, pecuária e apicultura para relacionar as mudanças climáticas ao assassinato do imperador Júlio César. A atualidade do texto está em trechos como: ‘‘Pois aqui o certo e o errado andam trocados; tantas são as guerras que devastam o mundo, são várias as faces do mal; o arado não encontra a honra que lhe é devida; despidas de braços nossas terras jazem em abandono, e as lâminas de podar cedem metal a espadas.’’ Poderia muito bem servir de slogan para o Movimento dos Sem-Terra, ou, como comentou ironicamente Jaques Brand, ‘‘é um livro que poderia ser perfeitamente reeditado pela Embrapa’’.
Ao Redor da Mesa – Teatro do Paiol, hoje e amanhã, às 21 horas. Ingressos a R$ 10,00 – antecipadamente a R$ 5,00 nos bares Dom Max, Beto Batata e Miss Sô.Evento que será apresentado hoje e amanhã no Teatro do Paiol reúne vídeo, música e performance cênica em Curitiba
Divulgação‘Brasil Maravilha’: personagens de Lewis Carroll aparecem no cotidiano brasileiroMarcos Amend‘A Dois’: peça musical com diálogos bem-humoradosGilson Camargo‘Ao Redor da Mesa’: conversas sobre religião, culinária, futebol, guerra, funeral e política

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