Alguns fatores cercam a montagem brasiliense ‘‘O Cano’’, que estréia hoje no Teatro Paulo Autran (Shopping Novo Batel), com o Circo Teatro Udi Grudi. Primeiro: o teatro é pouco conhecido, instalado ao lado do centro de convenções, no piso superior do shopping. Segundo: a peça está sendo vendida pelo 10º Festival de Teatro de Curitiba como espetáculo infantil. Dizem os artistas que ela é ‘‘híbrida’’: assim como encanta as crianças, também é um convite aos adultos para reencontrar a magia.
Premiada no Festival de Teatro de Edimburgo em 2000, estará de volta ao mesmo evento neste ano graças ao sucesso conquistado na estréia. De lá o grupo sai em turnê pela Alemanha, Dinamarca, Suíça, Espanha, Grã-Bretanha. Serão quatro meses de apresentações na Europa.
‘‘‘O Cano’ é o encontro entre a palhaçada e a música. As crianças adoram, mas acredito que os adultos gostam mais ainda’’, comentou a diretora Leo Sykes à Folha2. ‘‘Para nós é comovente ver o adulto voltar a ser criança. Este é um teatro infantil para a criança que temos dentro de nós; é uma magia que produzimos para encantar a todos’’.
Em Edimburgo a crítica fez rasgados elogios ao trabalho. Um jornalista orientou seus leitores: ‘‘Se tiver filho, faça ele matar a aula e ir para o teatro. Se não tiver filho, vá sozinho e rejuvenesça’’.
A concepção de ‘‘O Cano’’ é aparentemente simples, mas temperada pelos elementos da surpresa, do humor e da poesia. Três palhaços percorrem um mundo feito de sons despertados de instrumentos que à primeira vista são totalmente fora do usual.
Eles retiram canos de PVC do cenário e garrafas de plástico de refrigerantes, misturam pedaços de ladrilho e assim constroem suas maluquices sonoras. Quem pensa que dali saem ruídos esganiçados, está enganado. O repertório do grupo passa de Villa-Lobos ao jazz, com direito à MPB. Esse é um dos detalhes do espetáculo, porque ele também se apóia em solo circense, com todas as linguagens devidas. Tem números de malabarismo, fogo, acrobacias e as brincadeiras dos palhaços.
O criador de toda parafernália sonora é o ator Márcio Vieira, que há 20 anos pesquisa materiais alternativos para a música. Ao mesmo tempo em que buscava novas soluções para suas invenções, integrava grupos teatrais de Brasília. Durante quatro anos – entre 1982 até 1986, pertenceu ao Udi Grudi. Desligou-se do grupo e se dedicou a produzir em série instrumentos como pau de chuva, bate palma, girassino e outros. O Hospital Sarah Kubitschek incluiu esse material para sessões de terapia de seus pacientes.
Marcelo Beré, mineiro, e Luciano Porto, brasiliense, fundaram o Udi Grudi há 19 anos e dele nunca se afastaram. Juntos, estiveram em vários países europeus com espetáculo de rua. Foi por essa época que Beré defendeu a tese ‘‘A Dramática Situação do Teatro em Educação e o Circo Como um Bom Vírus’’ na Universidade de Londres, graças a uma bolsa de estudos.
Também com bolsa concedida pelo Conselho Britânico/Fundação Vitae, em 1992, Porto estudou mímica na The Desmond Jones School of Mime and Phisical Theatre, circo na Fool Time Center e clown na École Philippe Gaulier.
A diretora Leo Sykes nasceu em Londres, é doutora em Teatro pela Warwick University. Depois de trabalhar com grupos na Grã-Bretanha e Itália, foi durante cinco anos assistente de direção de Eugenio Barba, no Odin Teatret, na Dinamarca. Há alguns anos no Brasil, dirige documentários e curtas-metragens.
O Cano – Com a Cia. Udi Grudi. Direção de Leo Sykes. Hoje e amanhã, às 19 horas, no Teatro Paulo Autran (Shopping Novo Batel).

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