Entre o céu e o inferno
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Ilustrando a história real da compositora, artista plástica, ceramista e cantora chilena Violeta Parra, não surpreende que o filme ''Violeta foi Para o Céu'' - estreia desta semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - seja a obra escolhida para pegar carona na grade do Londrix (Festival Literário de Londrina); de maneira conceitual e estética, o longa do diretor chileno Andrés Wood tenta se expressar de forma vanguardista, mas acaba por tropeçar dentro da estrutura em seu próprio quebra-cabeças.
Mesmo sendo vencedor do Festival independente de Sundance este ano, não é por acaso que o longa dividiu opiniões do público e crítica. Com uma sequência narrativa que dispensa a lineariedade - e que quase arrisca um surrealismo, por meio de fragmentos poéticos - acompanhamos diversas fases na vida de Parra (Francisca Gavilán), que acontecem simultaneamente. Entre 'flashes' da entrevista em um programa de televisão, surge o relacionamento conturbado com seu pai bêbado, a caminhada pelas montanhas com seu filho pequeno e seu esforço para se dedicar à sua vocação artística. ''Picotada'', a história de Parra muda definitivamente quando ela encontra o músico suiço Gilbert Favre (Thomas Durand), homem que foi o grande amor de sua vida.
Apesar de não seguir nenhum caminho lógico, a colcha de retalhos de memórias da protagonista consegue ser muito bem amarrada pela cadência da câmera de Woods e, mesmo que algumas cenas se prolonguem mais do que o necessário, o aspecto visual do filme ainda é privilegiado pela ótima fotografia de Miguel Loan, que consegue transmitir mensagens bem diversas apenas brincando com a luz e com ângulos diferentes.
Mas, se esse tipo de experiência 'despedaçada' tem um impacto dramático que pode ser claramente justificado em películas como o ótimo ''A Árvore da Vida'', em um filme que gira em torno de uma única personagem, este recurso acaba por distanciar a protagonista do público - e isto se torna um grande problema, especialmente dentro de um roteiro que é baseado em uma biografia real. Ou seja, mesmo com a atuação emocionante de Gavilán (que encarnou Violeta com muito talento), não conseguimos entender nenhum dos conflitos que movem a personagem: Quem é essa mulher? Qual sua relação com seus filhos? Por que sua postura política é tão radical? Quais são suas motivações? Quais são suas paixões? Todas essas perguntas ficam soltas no ar, respondidas por um punhado de frases feitas - jogadas esporadicamente em ''off'' no meio do filme - e que não compreendem a verdadeira dimensão das premissas. Ou seja, mesmo se aceitarmos a 'licença poética' da protagonista ter uma vida confusa e inconstante, não conseguimos encontrar motivos que justifiquem suas paixões ardentes e o seu final trágico.
Dessa maneira, é decepcionante notar que ''Violeta foi Para o Céu'' quase acerta no tom, e que, apesar de contar com algumas cenas belíssimas e atuações fortes, o longa não consiga atingir o público com o impacto que deveria, acabando preso dentro de um purgatório estético. Uma chance de redenção? Pesquise a vida de Parra antes de ir ao cinema. Talvez isto faça bastante diferença.


