Arquivo FolhaScliar é um autor premiado e seus textos já foram traduzidos para doze idiomasO gaúcho Moacyr Scliar é o tipo de escritor que ama duas senhoras ao mesmo tempo. No caso, a senhora literatura e a senhora medicina. Neste triângulo amoroso não há conflito ou violentas cenas de ciúmes. Tudo caminha para o diálogo onde a literatura é eleita a senhora da palavra final.
Seu romance ‘‘Sonhos Tropicais’’, de 1992, é baseado na vida do pioneiro médico sanitarista Oswaldo Cruz. No livro ‘‘A Paixão Transformadora: História da Medicina na Literatura’’, de 1996, Scliar realiza um passeio pela história médica através de comentários de textos literários. Agora, seu novo romance publicado pela Editora Companhia das Letras ‘‘A Majestade do Xingu’’, focaliza a vida de Noel Nutels, um imigrante russo que dedicou sua prática médica à saúde dos índios brasileiros.
Aclamado como um dos grandes expoentes da literatura brasileira contemporânea, Moacyr Scliar faz de ‘‘A Majestade do Xingu’’ uma deliciosa ficção baseada em fatos e personagens da história do Brasil do século 20.

ReproduçãoO narrador do romance está na cama de uma UTI vítima de infarto. Lentamente vai contando ao médico que o assiste a sua história e principalmente a história de Noel Nutels. Ambos são imigrantes russos judeus que chegaram no Brasil no início da década de 20 com oito anos de idade. Conheceram-se no navio e tornaram-se amigos, quase irmãos. Ao desembarcarem em solo tropical, cada família toma um rumo e os garotos juram voltar a se encontrar.
Noel torna-se um famoso médico de esquerda que se dedica à saúde dos índios do Xingu e na proteção de seus direitos. Vacina-os contra varíola e introduz o uso da penicilina. O narrador torna-se um pequeno comerciante, dono de uma loja e armarinho, no bairro de Bom Retiro na cidade de São Paulo. Tendo uma vida monótona atrás de um balcão e desprovida de grandes feitos, este homem acompanha de perto todos os passos de Noel Nutels através da televisão, jornais e revistas. Embora passe o tempo cultuando seu amigo de infância, não tem a coragem necessária de entrar em contato com ele. Vive da memória.
Falando de seu herói, Noel, o narrador vai desfiando sua vida. A partir de seu anonimato, exalta a celebridade do médico. Resigna-se a uma vida medíocre para a exaltação da celebridade do outro, como se sua própria vida não possuísse nenhuma importância diante da importância da vida do outro. O sentido de sua existência está na existência de Noel Nutels, o médico dos índios. Até mesmo próximo da morte, num leito de hospital, a existência é mais importante que sua própria vida.
Moacyr Scliar é atento ao perceber antropologicamente a substituição da medicina indígena, centrada na figura do pajé - o Xamã - pela medicina cartesiana do mundo ocidental. Uma substituição que pode destruir uma cultura.
O médico que chega para salvar os índios da varíola é uma ameaça: ‘‘Até então cabia ao pajé o tratamento dos doentes; uns se salvavam, outros morriam mas de qualquer maneira tinha ascendência sobre a tribo. Agora algo se rompeu, a delicada trama de crenças tecidas através dos tempos. Antes a cura era feita através da invocação dos espíritos, da defumação do paciente com charuto de folhas, da administração de poções mágicas; rituais de que todos participavam, se não ativamente, então pela fé, a fé no poder dos deuses. Se a cura ocorria, todos celebravam; se o paciente morria, resignavam-se. Morrer era um evento esperado; morriam os que tinham que morrer. (...) Já a cura era diferente: a afirmação do poder do pajé, mas também uma vitória da tribo, um triunfo da fé coletiva. Um doente se salvava se o seu sofrimento fosse capaz de mobilizar o instinto vital, a vontade de viver da tribo inteira, expressa nas preces e nas danças. Agora vinha o doutor branco com seus aparelhos e injeções e curava a indiazinha sem reza, sem dança, sem defumação, sem nada.’’
Curiosamente o médico que ouve a história deste anônimo imigrante russo num leito de UTI, anota tudo em seu caderninho. História oral medindo a temperatura do solo brasileiro. Curiosamente Moacyr Scliar, além de escritor, é médico sanitarista.

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