Entre o anomimato e a celebridade
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segunda-feira, 15 de dezembro de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Arquivo FolhaScliar é um autor premiado e seus textos já foram traduzidos para doze idiomasO gaúcho Moacyr Scliar é o tipo de escritor que ama duas senhoras ao mesmo tempo. No caso, a senhora literatura e a senhora medicina. Neste triângulo amoroso não há conflito ou violentas cenas de ciúmes. Tudo caminha para o diálogo onde a literatura é eleita a senhora da palavra final.
Seu romance Sonhos Tropicais, de 1992, é baseado na vida do pioneiro médico sanitarista Oswaldo Cruz. No livro A Paixão Transformadora: História da Medicina na Literatura, de 1996, Scliar realiza um passeio pela história médica através de comentários de textos literários. Agora, seu novo romance publicado pela Editora Companhia das Letras A Majestade do Xingu, focaliza a vida de Noel Nutels, um imigrante russo que dedicou sua prática médica à saúde dos índios brasileiros.
Aclamado como um dos grandes expoentes da literatura brasileira contemporânea, Moacyr Scliar faz de A Majestade do Xingu uma deliciosa ficção baseada em fatos e personagens da história do Brasil do século 20.
ReproduçãoO narrador do romance está na cama de uma UTI vítima de infarto. Lentamente vai contando ao médico que o assiste a sua história e principalmente a história de Noel Nutels. Ambos são imigrantes russos judeus que chegaram no Brasil no início da década de 20 com oito anos de idade. Conheceram-se no navio e tornaram-se amigos, quase irmãos. Ao desembarcarem em solo tropical, cada família toma um rumo e os garotos juram voltar a se encontrar.
Noel torna-se um famoso médico de esquerda que se dedica à saúde dos índios do Xingu e na proteção de seus direitos. Vacina-os contra varíola e introduz o uso da penicilina. O narrador torna-se um pequeno comerciante, dono de uma loja e armarinho, no bairro de Bom Retiro na cidade de São Paulo. Tendo uma vida monótona atrás de um balcão e desprovida de grandes feitos, este homem acompanha de perto todos os passos de Noel Nutels através da televisão, jornais e revistas. Embora passe o tempo cultuando seu amigo de infância, não tem a coragem necessária de entrar em contato com ele. Vive da memória.
Falando de seu herói, Noel, o narrador vai desfiando sua vida. A partir de seu anonimato, exalta a celebridade do médico. Resigna-se a uma vida medíocre para a exaltação da celebridade do outro, como se sua própria vida não possuísse nenhuma importância diante da importância da vida do outro. O sentido de sua existência está na existência de Noel Nutels, o médico dos índios. Até mesmo próximo da morte, num leito de hospital, a existência é mais importante que sua própria vida.
Moacyr Scliar é atento ao perceber antropologicamente a substituição da medicina indígena, centrada na figura do pajé - o Xamã - pela medicina cartesiana do mundo ocidental. Uma substituição que pode destruir uma cultura.
O médico que chega para salvar os índios da varíola é uma ameaça: Até então cabia ao pajé o tratamento dos doentes; uns se salvavam, outros morriam mas de qualquer maneira tinha ascendência sobre a tribo. Agora algo se rompeu, a delicada trama de crenças tecidas através dos tempos. Antes a cura era feita através da invocação dos espíritos, da defumação do paciente com charuto de folhas, da administração de poções mágicas; rituais de que todos participavam, se não ativamente, então pela fé, a fé no poder dos deuses. Se a cura ocorria, todos celebravam; se o paciente morria, resignavam-se. Morrer era um evento esperado; morriam os que tinham que morrer. (...) Já a cura era diferente: a afirmação do poder do pajé, mas também uma vitória da tribo, um triunfo da fé coletiva. Um doente se salvava se o seu sofrimento fosse capaz de mobilizar o instinto vital, a vontade de viver da tribo inteira, expressa nas preces e nas danças. Agora vinha o doutor branco com seus aparelhos e injeções e curava a indiazinha sem reza, sem dança, sem defumação, sem nada.
Curiosamente o médico que ouve a história deste anônimo imigrante russo num leito de UTI, anota tudo em seu caderninho. História oral medindo a temperatura do solo brasileiro. Curiosamente Moacyr Scliar, além de escritor, é médico sanitarista.


