ENTRE NOEL ROSA E GUNS’N’ROSES
Primeiro CD solo de Paula Toller é um passeio pop que vai da música brasileira dos anos 30 ao som do rock dos 90
Luiz Claudio Oliveira

Divulgação
Paula Toller: ‘‘Precisa ter muita paciência, teimosia e saber esperar’’A cantora Paula Toller tem 15 anos de estrada à frente do Kid Abelha. Um trabalho marcante, com uma assinatura pessoal. Foi ela quem escreveu as letras de hits cantados por toda uma geração nos anos 80. A banda sobreviveu com sucesso nos anos 90. Um exemplo disso é que, no ano passado, o disco ‘‘Meu Mundo’’ e mais o de remix de sucessos venderam juntos um milhão de cópias em tempo de atenção quase que total aos pagodeiros e à ‘‘Música Pornográfica Brasileira’’.
Paula, em nenhum momento, apesar de ter tido convites, como declara na entrevista dada por telefone à Folha2, deixou o Kid Abelha para tentar carreira solo. Agora, fazendo questão de afirmar que continua na banda, lança um primeiro CD solo, assinado apenas como ‘‘Paula Toller’’.
Leia a seguir o que Paula revela sobre esse novo projeto.
Como foi a escolha das músicas para este disco que vai de Noel Rosa a Guns’n’Roses?
Paula Toller - Primeiro eu queria um repertório mais antigo, de música pré-bossa nova, mas que tivesse a atualidade das letras. Escutei muita coisa. Mas a maioria das músicas eu já conhecia de escutar na casa dos meus pais. Quando eles não estavam ouvindo música clássica, ouviam Carmem Miranda. Mas, ao mesmo tempo, este não é um projeto de disco educativo, cultural. É um disco pop. Eu não tenho um respeito medroso a esses compositores. Procurei dar um tratamento às músicas como se fossem minhas - aliás, adoraria que fossem minhas. Escolhi outras músicas mais atuais justamente para dar o caráter pop ao disco.
Como você tem recebido as críticas, principalmente as negativas?
Paula - A do Estadão (Jornal O Estado de São Paulo) foi a mais grosseira, a mais mal-educada. Não porque fala mal. É porque fala bobagem. Eu estou certa do que eu fiz. É um disco meu, muito pessoal, disco de detalhes, para ouvir várias vezes e ir percebendo coisas. Mas não tive só críticas ruins, pelo contrário, outras foram maravilhosas.
Este foi um projeto seu ou você recebeu um convite para gravar?
Paula - A idéia foi minha. Eu já tinha convites há muito tempo, mas sempre de uma forma capciosa. Dando a entender que seria melhor eu deixar o Kid Abelha e iniciar carreira solo. Talvez eu tenha certa vocação para São Judas Tadeu, o santo das causa perdidas, mas nunca admiti sair do Kid Abelha. Precisa ter muita paciência, teimosia e saber esperar. Demorou 15 anos para conquistar respeito da crítica. Nosso trabalho é autoral e artesanal. Apesar de pop, não é canalha. Existe muito trabalho feito industrialmente só pensando em vendas. Não é o nosso caso. Demora até convencer as pessoas.
Você não mudou muito a sua maneira de interpretar, mesmo com músicas mais clássicas.
Paula - Essa é a minha maneira. Sou delicada, educada, tenho um jeito reservado. Tudo isso às vezes é confundido com uma coisa tímida e nervosa. Não sou nenhuma Celine Dion ou Mariah Carey. Não gosto de ‘‘exibir’’ a voz com malabarismo, cantar muitas notas em poucos segundos. Alguns acreditam que não tenho voz, o que é um engano. É a maneira que eu escolhi de mostrar a minha voz. O segredo está na emissão, na afinação e na letra.
Falando em letra, você que é autora de inúmeros sucessos, optou por participar pouco deste disco. Por quê?
Paula - A princípio não teria nenhuma música com letra minha. Mas senti falta de uma letra erótica (‘‘Derretendo Satélites’’, em parceria com Herbert Vianna), de uma outra para o meu filho Gabriel (‘‘Oito Anos’’, em parceria com o baixista Dunga). Fazer letra é uma tarefa árdua. O trabalho do Kid Abelha engana porque é uma coisa fácil de cantar, mas é preciso ralar muito até achar o som certo, a frase certa.
Antes você falou que procurou a atualidade das letras, mas em algumas como ‘‘E o Mundo Não se Acabou’’ (Assis Valente) e ‘‘Onde Está a Honestidade’’ (Noel Rosa) você mudou alguns versos.
Paula - O que eu achei que era um pouco de época demais eu mudei para uma malícia mais atual. Peguei alguns termos e situações para mudar o datado. Por exemplo, em vez de cantar ‘‘dancei um samba em traje de maiô’’ (‘‘E o Mundo Não se Acabou’’), procurei mostrar o que seria tão escandaloso e optei por ‘‘dancei pelada na televisão’’.
E como foi cantar uma canção de Noel Rosa e logo em seguida outra do Guns’n’Roses?
Paula - Eu gosto de música pelo que ela me causa tanto espiritual como fisicamente. Não sigo rótulos. É tudo música. ‘‘Patience’’ mostra o que eu sou. Sou pop.
Se fosse vivo hoje, Noel também seria pop?
Paula - Noel era boêmio, da noite. Às vezes querem que a gente o trate como se tivesse sido um presidente da República. Não, ele fazia uma música muito popular.
Para fechar o disco, você escolheu a música ‘‘Cantar’’, do Godofredo Guedes, pai do Beto Guedes, que também já a gravou, como ela entrou no disco?
Paula - Primeiro porque adoro o Beto Guedes e todo o pessoal do Clube da Esquina. E ‘‘Cantar’’ resume bastante o espírito deste disco. ‘‘Cantar’’ é o elo de ligação de tudo.
E na parte musical, como foi a escolha dos músicos, juntando gente como o Herbert Vianna, o Antônio Adolfo, o Luís Carlini...
Paula - O Herbert é um parceiro e grande amigo. Toda vez que a gente se encontra, procura fazer uma música. Ele trouxe a idéia de ‘‘Derretendo Satélites’’, que acabou ficando como a música de trabalho do disco e que tem clipe também. Mas o time foi composto a partir de um núcleo básico tendo Dunga (baixo), Ricardo Palmeira (violão e guitarras) e Marcio Miranda (programação de bateria e samplers). A partir daí, dependendo do que a música pedia, fomos chamando os colaboradores.
Por que vocês optaram sempre por programação de bateria eletrônica em vez de uma bateria acústica?
Paula - Acho que a bateria acústica puxa mais para o rock. Optamos por ter mais percussão, tanto acústica quanto eletrônica. O disco ficou com bastante peso, com uma sonoridade mais atual.
Como você vai seguir com este trabalho. Vai fazer show?
Paula - Não, não vou fazer show solo. Este não é um trabalho de carreira solo. É só um disco solo. Não vai ter show. Para divulgar, estamos trabalhando a música ‘‘Derretendo Satélites’’, que também terá um clip. Mas não vou abandonar a carreira do Kid.
Falando nele, como está o Kid Abelha?
Paula - O Kid está ótimo. As coisas foram muito bem em 97 com ‘‘Meu Mundo’’ e o disco de remix. Somando os dois, a vendagem quase chega a um milhão de cópias. Na carreira internacional está a passo de tartaruga. O disco em espanhol está meio parado.
Você vai repetir esta experiência de disco solo?
Paula - Vou fazer pelo menos mais um disco, porque assinei contrato para dois. Mas não tem data nem perspectiva por enquanto de como vai ser, ou se terá esse mesmo repertório. Está sem data, sem nada.

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