Para escrever um guia confiável sobre a vida noturna de Santiago, em primeiro lugar, é preciso pensar no que o bom viajante gostaria de fazer. Esse que eu chamo de ‘‘antiturista’’ é um personagem que sabe voar com bagagem leve; evita embarcar em qualquer tour a menos que esse seja, em si mesmo, toda uma experiência; se hospeda com moradores ou em hotéis genuínos e procura a comida, a festa, as tradições e os costumes da região antes do hotel e do shopping center de arquitetura em série.
Em segundo, é necessário saber selecionar, porque, por mais pequena que seja Santiago, seria impossível conhecê-la por inteiro. Este guia está concebido para o ‘‘antiturista’’ e para aqueles que desejam entrar no espírito da velha Santiago, lugar onde hoje tudo está acontecendo.
Antes que escureça, tome o metrô até a Estação Universidad de Chile para percorrer o Paseo Ahumada, calçadão-chave para sentir o espírito da diversidade local. Ao descer do vagão, o viajante dá de cara com o mural do pintor chileno Mario Toral, mas é na subida até a cidade que está o lado verdadeiramente fascinante da capital chilena: sua gente.
O Paseo Ahumada é o sonho de qualquer profissional de casting. Entre os yuppies fantasiados de Armani saindo dos edifícios do Banco Central, os estudantes universitários sempre prontos para fazer uma hora, as mulheres à caça de ofertas e a considerável porcentagem de loucos pregando ao Senhor, não há tempo para se aborrecer.
A um par de quarteirões do metrô estão o Café Ahití e o Café Caribe, dois lugares clássicos para fazer uma parada, tomar um café com leite e olhar as pernas das mulheres que servem o café. Se sua idéia for tomar um chá como um lorde inglês, um pouco mais adiante (no número 312) existe uma escada que desce ao Salón de Té Santos.
A algumas quadras desse lugar está o Da Carla, um restaurante acolhedor que serve as melhores massas do Chile e os mariscos ao parmesão mais fino que se pode encontrar. E, tratando-se de tradição, tomando um táxi e descendo pela Alameda até a Torre Entel chega-se ao Café Torres, com 118 anos de festa e um balcão do século passado digno de ser visto. O espaço é dividido por turistas e boêmios que sentam para comer carne, tomar vinho tinto, dançar tango e cantarolar velhas canções do folclore nacional. O lugar é totalmente retrô.
Na Rua J.V. Lastarria, paralela ao Cerro Santa Lucia (bonito mas perigoso para subir à noite), graças a um minúsculo cine-arte nasceram uma série de, também minúsculos, cafés, bares e restaurantes que podem ser visitados facilmente em uma noite. Nesse lugar se movimentam produtores de cinema, diretores, atores e gente do meio televisivo, ainda que agora a emergente Plaza ¥u¤oa dispute as atenções. A ondulação da rua e sua arquitetura, às vezes gótica, às vezes afrancesada e algo alemã, dá um toque noir à região.
Não deixe de tomar uma cerveja no Café del Biógrafo, cheio de veteranos, ou no Berry, um espaço ínfimo, mais para o público universitário, que tem um barman marroquino divertidíssimo.
Para comer, as opções são o Gatopardo, com cozinha mediterrânea; o Cocoa, restaurante peruano somente com cinco mesas; e o Café la Pérgola, dentro da Plaza Mulato Gil, um pátio colonial com livraria, museu, diversos ateliês e uma galeria de arte. E logo mais adiante (um na Merced e outro na Alameda), há dois lugares onde os que sabem comem os melhores lomitos do Chile: o Bierstube e a Fuente Alemana.

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