ENTRE GÔNDOLAS E MÁSCARAS
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segunda-feira, 12 de janeiro de 1998
Cleide Cavalcante Agência Estado 
Arquivo FolhaFascínioBrincadeira consiste apenas no desfile de pessoas pelas ruas trajando luxuosas fantasias. A maior concentração de pessoas acontece na Praça São MarcosAlegre, luxuoso, criativo e contagiante. Assim é o carnaval em Veneza. A agitação é tanta que deixa a cidade fervendo em pleno inverno. Fantasias suntuosas, máscaras que escondem rostos das mais diferentes nacionalidades, reis e rainhas que lembram personagens do século 17. A festa, estranha para brasileiros acostumados com o embalo de ritmos fortes, como o samba e o axé, é silenciosa, porém, brilhante.
Na verdade, o carnaval veneziano é um espetáculo para ser visto, não ouvido. Realizado no mês de fevereiro, é um dos principais festivais internacionais, com duração de dez dias. Tem início no dia 10 e segue até o dia 20. Os dias de maior agito são o Sábado Gordo (17/2) e a Terça-feira Gorda (20/2).
A maior concentração de pessoas é na Praça São Marcos, um importante ponto turístico, e na Piazzetta. A brincadeira do carnaval nesta região da Itália consiste simplesmente no desfile das pessoas pelas ruas trajando luxuosas fantasias. Personalidades de outros países participam dos desfiles, para representar o carnaval de seu país de origem. A cidade dos sonhos, como é conhecida, parece mesmo se transformar no cenário de uma incrível fantasia.
Nada de corpos seminus, pelo contrário. Muitas fantasias são confeccionadas em veludo legítimo, outras, de tecidos grossos, levam enormes babados nas golas e punhos. Capas longas, chapéus de todos os tipos e máscaras também completam o figurino dos foliões. Sem esquecer, a maquiagem, muita maquiagem. O turista desavisado, não vai ficar na mão se desejar participar da folia. É muito fácil comprar ou alugar trajes para a festa, e as lojas até ensinam como fazer a melhor maquiagem. Aspirantes a artistas também se habilitam a pintar rostos pelas ruas.
Nos arredores da Praça São Marcos é comum a realização de diversos espetáculos teatrais simultaneamente. Cenas que remetem o espectador a um passado medieval, quando era parte da cultura apresentações teatrais de grupos mambembes. Os atores, pessoas anônimas, que nesses dias vivem momentos de estrelato.
Festa longa Não se sabe ao certo quando a festa teve início, mas alguns documentos históricos afirmam que no século 11 a população já saía às ruas para brincar. Havia sacrifícios de animais e corridas de touros. Hoje o carnaval reúne milhares de turistas de todas as partes do mundo, numa cidade acostumada a receber mais de 10 milhões de visitantes durante o ano todo.
Por volta do século 15, Veneza vivia uma considerável crise em alguns setores. Pretendendo fazer com que a sociedade esquecesse o clima decadente da época, o governo elaborou um decreto determinando que o carnaval tivesse início no dia 26 de dezembro, prosseguindo até a quarta-feira de Cinzas. A festa era pra lá de pagã. Sob os olhares da lei tudo era permitido, incluindo a libertinagem. Até freiras e frades entravam na dança.
Aos poucos isso foi mudando e a mais esperada festa de rua chegou aos palácios, mansões e teatros. Mas o carnaval milionário dos abastados teve fim por decreto em 1797, com a queda da República. Quase 100 anos depois, os venezianos tentaram criar a Sociedade do Carnaval, mas a idéia não deu muito certo. O pouco que se via pelas ruas ainda era muito triste e sem vida.
Foi somente em 1980, com a edição da Bienal de Veneza, que o carnaval veneziano ganhou fôlego considerável. Hoje, o fascínio da festa traz o gosto de recordações antigas.


