Saiu nos Estados Unidos o livro ''Heidegger's Children'', ou ''Os Filhos de Heidegger''. Foi escrito por um certo Richard Wolin, que aponta o dedo para Hannah Arendt, Karl Löwith, Hans Jonas e Herbert Marcuse, todos judeus que aprenderam com o filósofo também conhecido pelo comprometimento com o nazismo. O mesmo Wolin já atacou Derrida, judeu argelino e francês por adoção, que também utiliza o pensamento heideggeriano, etc. Sua pergunta: ''Ao abraçar a filosofia do lendário pensador alemão, Derrida e outros esquerdistas radicais pós-modernos também aceitaram o cerne das duvidosas concepções políticas de Heidegger?'', como resume James Ryerson, resenhista do ''Book Review'', edição do dia 16. Ele não leva muito a sério o livro de Wolin, enfim, provocar pode ser fácil e então nada diz. Sugere que o autor escorrega para o leviano. E o empurra ladeira abaixo.
O resenhista cita uma carta de Marcuse a Heidegger em que o pensador de ''Eros e Civilização'' diz o seguinte: ''Nós não podemos fazer a separação entre o filósofo Heidegger e o homem Heidegger, porque isso contradiz sua própria filosofia.'' Mas isso não basta para derrubar a filosofia dele. Mesmo que a hipótese tenha sua validade, não explica tudo: ''Uma coisa é observar que Heidegger foi um filósofo da vida prática e outra coisa é afirmar, como Wolin faz, que Heidegger foi basicamente um filósofo da vida prática de Hitler.''
Palavras de Wolin: ''Heidegger via o cosmopolitismo, os direitos humanos, o incremento da ciência - o que ele tomava pelas contrapartidas sociais e políticas da lógica e da razão ocidental - e não via nada a não ser vulgaridades da sociedade de massas e a tecnologia sem alma que tinha de ser suplantada pelo um dia glorioso soldado ético. O Ser autêntico tinha abandonado a obra. O Nacional Socialismo o traria de volta.''
Por que os discípulos de Heidegger foram discípulos de Heidegger? Diz o resenhista, seguindo o livro: ''Parcialmente foi por causa do próprio magnetismo de um pensador extraordinariamente talentoso. Parcialmente, Wolin sugere, foi porque eles eram judeus assimilados, seculares, que tinham montado sua identidade germânica sobre seu domínio das tradições culturais da nação, e Heidegger permanecia como um tipo de 'herdeiro autoproclamado' dessas tradições.'' Será mesmo? Se é isso, não convence, a questão continua aberta. Assim como o nó das relações de Hannah Arendt (na juventude, amante do tortuoso professor). É a história mais complexa de todas, tema para uma reedição de Dostoievski, o grande romancista russo. Mais do que o ''Sombra'', ele sabia o mal que se oculta no coração dos homens, como lembrou Moravia num ensaio sobre ''Apocalypse Now''.

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