Não por acaso o Cine Com-Tour/UEL programou para esta semana - a partir desta quinta-feira (11) - o lançamento de "A Aparição", novo filme do cineasta francês Xavier Giannoli. A época é propícia à reflexão - crentes ou não crentes - sobre tema desafiador: aquele da relação entre fé e religião.

Anna (Galatea Bellugi) protagoniza a história de uma adolescente que têm visões da Virgem Maria suscitando dúvidas e fé
Anna (Galatea Bellugi) protagoniza a história de uma adolescente que têm visões da Virgem Maria suscitando dúvidas e fé | Foto: Divulgação



Um dos melhores atores europeus na atualidade, o excelente e sempre intenso Vincent Lindon interpreta em "A Aparição" um jornalista/repórter de guerra, Jacques, recém chegado da frente síria e no momento seriamente afetado pela morte de seu companheiro fotógrafo durante atentado que presenciou e que também lhe deixou sequelas. Abalado física e psicologicamente pelo trágico evento, tenta se recuperar.

Nesse momento recebe estranho telefonema: uma proposta do Vaticano para que faça parte, como profissional leigo, de uma comissão canônica encarregada pela Santa Sé. O motivo é investigar duas presumidas aparições da Virgem Maria a uma adolescente, Anna (Galatea Bellugi), que vive num pequeno vilarejo em região montanhosa do sudoeste da França.

Perplexo e ao mesmo tempo intrigado e estimulado pela curiosidade que representa uma válvula de escape, Jacques aceita e vai ao local entrando em contato com uma realidade que assumiu proporções impressionantes, com milhares de peregrinos que agora fazem longas filas até o local das aparições para ver a tal garota e/ou presenciar algum fato novo.

Na trama há um padre, espécie de protetor e guia da garota, que não se sabe se está de boa ou má fé, talvez somente interessado em fazer da região um importante lugar de peregrinação. Na tentativa de entender o que há de verdade na história, e qual seria o estado mental e psicológico de Anna, Jacques vai afinal estabelecer contato com a jovem. Enquanto isso, as investigações vão permitir ao repórter conhecer aspectos ambíguos e pouco claros sobre a vida pessoal de Anna. As dúvidas do jornalista quanto à autenticidade das aparições acabam por criar uma crise entre os dois. Crise que parece conduzir para uma resolução trágica.

"A Aparição", como afirmou o diretor Xavier Giannoli, nasceu do desejo de investigar fatos polêmicos que marcaram a história da Igreja Católica durante séculos.
É um filme que se equilibra entre a investigação religiosa e o thriller. Investigação porque faz com que Jacques, um agnóstico mas sem preconceitos, entenda de fato se e como as aparições da Virgem Maria são reais ou resultado de mistificação. E thriller porque, especialmente na segunda metade, envolve emocionalmente os dois principais protagonistas e ainda fornece dados novos para uma tentativa de elucidação da dúvida.

Além da resolução do thriller, no filme não há respostas certas para as questões colocadas sobre a natureza real das aparições. São de fato reais ou o resultado de uma mente doentia? Temos então o sagrado e o profano. Uma ambivalência que, como é administrada por Giannoli, gera perplexidade. Uma intrigante confusão que o diretor não consegue gerenciar completamente, fugindo ao seu controle. No entanto, é trabalho muito interessante, especialmente para os temas que tratam e lembram "Lourdes", o belo filme que Jessica Hausner dirigiu em 2009 sobre os mistérios e controvérsias relacionados à curas milagrosas que acontecem naquele santuário francês.

"A Aparição", ainda que imperfeito, é filme para se assistir. Não como fanática romaria, evidentemente. Ou muito menos como caça às bruxas. É certamente recomendável, com prós e contas. Vai permanecer como tentativa de clarear reflexões teológicas. E vale muito pelas presenças fortes de Lindon e Galatea, a bela e mística intérprete de Anna, absorvida (e subjugada) por sua personagem.

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