Entre assombro e estranhamento
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domingo, 25 de agosto de 2013
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Ana Paula Nascimento
Reportagem Local
Com dramaturgia do argentino Daniel Veronese, a CiaSenhas, de Curitiba, apresenta hoje e amanhã, às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo, o espetáculo teatral "Circo Negro", um texto-manifesto que coloca em discussão a representação a partir do jogo dos atores. A narrativa da peça é conduzida por criaturas/personagens que se alternam entre seres reais e imateriais, criando atmosferas cênicas em que a realidade se revela estranha, porém reconhecível em sua crueldade.
Por meio de números circenses, surgem metáforas sobre o jogo de relações de poder e competitividade instaurados sobre verdades e mentiras, narrativa e drama, personagem e narrador, seres autônomos e autômatos, em um jogo lúdico e cruel. Dirigido por Sueli Araújo, a montagem ganhou destaque no Festival de Teatro de Curitiba no ano passado, o que rendeu indicação para participar do Filo 2013.
Ao abordar o trabalho do ator, a montagem enfoca a metalinguagem tanto no texto quanto na encenação. "São postas em jogo questões como quem manipula quem e qual o limite entre realidade e ficção no teatro", comenta Sueli, em entrevista por e-mail. Sobre o texto de Veronese, um dos dramaturgos mais incensados do momento, ela afirma que foi um grande prazer e desafio trabalhar a sua dramaturgia. "A motivação em conhecer a sua obra surgiu depois de assistir a um espetáculo dele em Curitiba, e encenaremos outro texto de Veronese em 2014", adianta a diretora.
Caracterizado pelo tom da linha dramatúrgica cruel e direto, Sueli conta que algumas adaptações foram necessárias, na medida que o texto original foi escrito inicialmente para atores e bonecos, sendo que na encenação curitibana há somente atores. "Elas também foram importantes para intensificar um diálogo criativo entre a encenação e o texto de modo a manter tanto questões tratadas por Veronese quanto a identidade poética da companhia", pondera.
Sobre a referência ao circo, como o próprio título sugere, Sueli observa que no texto de Veronese a crueldade é um elemento importante e que o Circo Negro transita por esta instância e explicita a representação e a dor que a atravessa. Na montagem, a ideia de circo aparece em forma de alusão, como sugestão de um lugar do imaginário coletivo, constituído por dois elementos fundamentais a representação e o risco real inerente aos números circenses.
"O ator é o único capaz de morrer e voltar", diz um trecho da peça, evidenciando a beleza e o desafio dessa profissão. Sobre isso, Sueli faz as seguintes considerações: "O lugar de mediador de subjetividades atrelado à condição de eterno viajante dos lugares impenetráveis entre a vida e a morte faz do ator/atriz figura absolutamente necessária à saúde de uma sociedade. É através dele e com ele que a sociedade exercita aquilo que podemos chamar de lucidez-lúdica. As dificuldades de se manter dignamente nesta profissão são inúmeras e em alguns momentos parecem intransponíveis. Há, porem, no teatro uma força ancestral que se eleva sempre que um ator/atriz assume o seu lugar de condutor de mundos através da arte ao vivo diante de uma plateia", conclui.


