Entre apuros e aplausos
Zeca Correia Leite
De Curitiba
O Guairinha, que durante meses esteve em reformas, foi entregue ao público há poucas semanas, durante o Festival de Teatro de Bonecos. No final de semana veio o primeiro vexame técnico - a atriz Denise Stoklos teve que interromper o espetáculo Elis, depois que o som sofreu uma pane. A montagem era em cima da trilha sonora com músicas interpretadas por Elis Regina.
O intervalo para o conserto durou quase o mesmo tempo de uma sessão - cerca de 40 minutos. Os técnicos tiveram que trocar os fios ligados às caixas de som, levando-os do palco até a mesa instalada no fundo do auditório. Ontem pela manhã, a presidenta do Teatro Guaíra, Mônica Rischbieter, disse não ter sido informada do ocorrido.
Elis, que Denise apresentou dentro de sua retrospectiva de 30 anos de carreira, é uma montagem completamente diferente daquela apresentada no final dos anos 80 no Guairão, para uma ruidosa platéia. A última música daquele espetáculo era Se Eu Quiser Falar com Deus, numa clara referência à morte da cantora. Stoklos dava a nítida impressão de estar subindo uma escada sem fim, como se chegasse ao céu. Era uma figura chaplinesca. Desta vez a montagem começou com a música de Gilberto Gil, mas com outra encenação. Momentos marcantes como quando Elis canta Na Baixa do Sapateiro, de Ari Barroso, e Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, de João Bosco/Aldir Blanc, foram suprimidos. Este Elis é uma nova concepção da artista, que apesar de sua energia e da marca inconfundível que ela empresta às suas criações, ainda assim não tem o brilho e a alegria da criação anterior. O texto inicial é comovente, onde a atriz fala de sua admiração pela cantora, seguida mais tarde pelo esquecimento, até um quase encontro entre as duas, em São Paulo. No caminho estava a morte.
Já o segundo texto, encerrando a apresentação, perde a delicadeza poética para ser um manifesto pró-liberdade que soa desfocado. Discurso apaixonado, eloquente, mas fora do tempo. Também a última música do roteiro, Gracias a La Vida, de Violeta Parra, ficou deslocada. Deu-se a impressão que ela serviu apenas para justificar o texto. Denise Stoklos emociona o público com este trabalho, mas quem viu o primeiro, com certeza prefere aquele.





