Zeca Corrêa Leite
Curitiba

Divulgação‘‘Tchaikovsky - Um Ser Dividido’’, atração no GuairãoQual a dimensão da dor dos possuídos por paixões contraditórias? Por quais caminhos transformam em beleza e arte aquilo que lhes é corrosivo, como se fosse uma anti-vida dentro de suas próprias vidas? Que destino é esse a imprimir escuridão e luz nos segredos mais doloridos? Duras perguntas, difíceis respostas. Pois foi debruçando-se nestas questões que o coreógrafo Boris Eifman construiu um espetáculo que será apresentado somente hoje em Curitiba, com o Ballet Teatro de São Petersburgo: ‘‘Tchaikovsky - Um Ser Dividido’’.
O bailado russo, em sua primeira turnê pelo Brasil, coloca a nu a alma triste e atormentada de um dos mestres da música universal, Peter Ilyitch Tchaikovsky, que passou a existência tentando conter o que lhe era impossível - sua homossexualidade. A luta empreendida no sentido de ostentar uma imagem que não correspondia ao seu interior, é o tema central do trabalho.
Mito absoluto da música russa, Tchaikovsky não está sozinho neste mergulho feito em sua solidão. Lembranças que o acometem são retratados em seu leito de morte. Ali estão a amiga e mecenas, a Baronesa von Meck, com quem se correspondeu por longos anos e que nunca chegou a conhecer; a esposa Antonina Miloukova, uma peça a mais no complicado jogo das aparências; o sobrinho Vladimir Davydov, motivo de sua paixão e a quem dedicou a ‘‘Patética’’, e também seu ‘‘duplo’’, aquela outra alma que o habitava, e imperava em seus desejos.
‘‘O processo de criação de um grande artista permanece um mistério. Abordá-lo é tão complexo quanto penetrar em sua vida privada. Como definir, aliás, o limite que separa a vida da criação ?’’, pergunta Boris Eifman, que tomou a si o encargo de colocar luzes e sombras no cenário interior de um ícone das artes russas.
Sem apoioO que hoje pode parecer uma festa, um desenrolar contínuo de sucessos, traz também sua história de luta. O Ballet Teatro de São Petersburgo, criado em 1977, foi a primeira companhia a romper com as regras do academicismo russo. Solenemente ignorado pelas autoridades culturais, teve contra si o público quando da estréia de ‘‘Tchaikovsky - Um Ser Dividido’’.
Centenas de pessoas cercaram o teatro na tentativa de impedir a realização do espetáculo. Queriam a todo custo impedir a apresentação do bailado que mostra o tormento do compositor frente à própria homossexualidade. Depois de onze anos de insistência, com a queda da cortina de ferro, é que a companhia passou a ser conhecida fora de seus estreitos limites.
O conservadorismo teve que se abrir às idéias de Eifman e seus bailarinos, que ele coloca nas alturas: ‘‘Para mim os melhores artistas são os meus, com os quais eu trabalho com muito prazer. Estrelas do meu teatro, como Albert Galitchanine, Igor Markov, Elena Kouzmina, Vera Arbouzova e Yuri Ananian são artistas únicos, que possuem alta técnica e características externas raras e talento artístico’’.
O ‘‘balé-teatro’’, conceito básico de seu trabalho que está inclusive no nome da companhia, direciona a arte do coreógrafo. Ele faz questão que seus bailarinos tenham formação teatral, para assim poderem criar personagens. Virtuosismo e técnica não são suficientes para o bailado que Eifman apresenta; é preciso vida.
Livre Boris Eifman afirma que nunca teve ídolos, mas coreógrafos com os quais se identificava; e que seu balé não deve ser enquadrado num determinado termo. ‘‘A base da minha coreografia é o balé clássico, porém isso é um fluxo livre da fantasia. Não é moderna nem clássica, é uma livre dança das emoções’’, disse numa entrevista.
Com aproximadamente 50 espetáculos montados, o diretor do Ballet Teatro de São Petersburgo tem por todos ‘‘carinho especial’’, mas os quatro últimos ‘‘são os que apresentam o resultado da procura do estilo do meu teatro’’, revela.
São eles: ‘‘Tchaikovsky’’, ‘‘Don Quixote’’ (ou ‘‘Fantasias de um Louco’’), ‘‘Os Karamazov’’ e ‘‘A Gisele Vermelha’’. Nessas criações estão colocados problemas filosóficos da vida humana. ‘‘Estas idéias filosóficas se refletem em forma de um espetáculo emocional’’, explica.
Foi por esse gosto de se envolver com as emoções que chegou ao maior compositor de sua terra. Eifman deixa claro que ao criar o balé não tinha preocupação única de dar ênfase ao homossexualismo do personagem. Ele conta:
-Isso não era importante para mim. Eu queria entender porque é tão trágica sua música. Me interessava a ligação entre o princípio trágico na música de Tchaikovsky e o estado espiritual do compositor. No espetáculo tentei materializar a sua música; a análise deste lado trágico é que me levou ao seu homossexualismo.
q Ballet Teatro de São Petersburgo apresenta ‘‘Tchaikovsky - Um Ser Dividido’’, coreografia de Boris Eifman. Hoje, às 21 horas, no Guairão. Ingressos: R$ 50,00 (platéia), R$ 40,00 (1º balcão), R$ 30,00 (2º balcão).

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