ENTRE A TEORIA E A INTUIÇÃO
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de julho de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
O compositor húngaro Ian Guest esteve no 20º Festival de Música de Londrina, onde reafirmou a paixão pela música brasileira e o compromisso com a educação musical
A lista de alunos é grande e já abrigou nomes como Rafael Rabello, Hélio Delmiro, Maurício Einhorn, Joel Nascimento, Luiz Carlos Vinhas, Henrique Cazes, Mário Adnet, Almir Chediak, Luiz Otávio Braga e Maurício Carrilho. Desde que encontrou seu rumo dentro da música, Ian Guest optou pelo conhecimento teórico voltado para o ensino, desviando da interpretação. Húngaro de nascimento, trocou a música erudita pela popular brasileira. Ian Guest esteve em Londrina, onde ministrou os cursos Harmonia na Música Popular I e II , durante o 20º Festival de Música da cidade.
Nascido em uma família de músicos, Guest aprendeu a ler partitura ao mesmo tempo em que foi alfabetizado. Do violino passou ao piano e, do piano, para as tramas da estrutura musical, onde se aprofundou. Hoje mantém um currículo vasto e uma atividade que o obriga a dividir Mariana, cidade histórica do interior de Minas, onde mora, com o País. Ian Guest é um professor que atua em vários Estados, além do Centro Ian Guest de Aperfeiçoamento Musical, que fundou no Rio de Janeiro em 1987 e hoje acomoda cerca de 300 alunos.
Autor e revisor de diversas publicações, Guest tenta aproximar dois extremos que marcam a história da música popular brasileira: os músicos intuitivos dos restritivamente eruditos. O professor enxerga defeitos nas duas formações, e considera o meio termo ideal.
Com bacharelado em composição pela Universidade do Rio de Janeiro e Berklee College of Music em Boston , Ian Guest chegou ao Brasil com a família que fugia da revolução húngara de 1956, comandada pelo Movimento Nacionalista e Insurrecional.
No Brasil, Guest deu de cara com a bossa nova. E percebeu que, apesar da qualidade do movimento, seus líderes não sabiam exatamente o que estavam fazendo. Fui trabalhar como técnico de som da Odeon e conheci todo o pessoal da Bossa Nova. E descobri que essas pessoas, com tanta criatividade, não sabiam o que estavam fazendo, era puramente intuitivo. Eu comecei a explicar para eles o que estava acontecendo e descobri minha vocação para a educação. Descobri que a teoria só tem sentido depois da prática, comenta.
Depois do bacharelado nos Estados Unidos, Guest ganhou renome no Brasil e passou a lecionar com frequência. Aos poucos, foi se especializando em estudos de arranjo, improvisação e harmonia. Paralelamente, produzia discos e trilha sonoras para filmes e peças teatrais.
Entre outros elementos, Ian Guest introduziu no País o Método Kodály, desenvolvido pelo compositor húngaro Zoltán Kodály (1882-1967), que enxergava o corpo humano como ferramenta para a musicalização.
A atração por Minas Gerais, que já se manifestava em algumas composições, aumentou quando notou a semelhança entre a região de Mariana e a Hungria de sua infância. A mudança veio em seguida. Eu me sinto em casa, e minha música também é muito mineira, acentua.
Durante o 20º Festival de Música de Londrina, Ian Guest lançou o livro 16 Estudos para Piano Escritos e Gravados, que inclui um CD. É uma obra importante porque quase não existem edições de música popular como ela é tocada, sempre há reduções. Existem dois tipos de músicos, os que aprenderam por leitura e os que aprenderam por ouvido. Eu sou um mediador entre eles. Para quem aprendeu no ouvido, pretendo mostrar a imagem. Para quem aprendeu lendo, pretendo mostrar o som, explica.
Entre os projetos do músico está uma novidade que vai chamar a atenção dos instrumentistas brasileiros. Guest está supervisionando o Livrão da Música Brasileira, uma obra idealizada por Toninho Horta que vai trazer 600 músicas com cifras e melodia partiturada, compondo um panorama da música brasileira no século 20, indo de Chiquinha Gonzaga a Lenine. O professor ainda não sabe por qual editora o material será publicado, mas garante que o projeto deve estar pronto em cerca de três meses.
Tanta atração pela música brasileira se explica pelo dinamismo da influência folclórica: O que mais marca são as raízes folclóricas, que são totalmente fundidas com a música popular. Isso não acontece na Europa, por isso lá é devagar. Aqui é totalmente autêntico. A música erudita aqui fica em segundo plano porque, no momento, o popular é mais representativo pela mensagem ideológica, literária e pelo cultivo do folclore. É o veículo número um para comunicação e expressão artística.
Entre as características brasileiras, também estão a interpretação espontânea, o autodidatismo e a liberdade de mercado, que mistura qualidade com coisas descartáveis. Gêneros como o pagode, que já foi fantástico, hoje estão em um nível que gera desconfiança, começam a ser fabricados em série. É o tipo de poluição que há em todos os setores da vida, argumenta.
Mirando o futuro, o músico enxerga a saturação do lugar-comum e uma crise acentuada entre a acomodação e a criatividade. As mudanças poderiam vir com festivais nos moldes daqueles que existiam nos anos 60 e, principalmente, com um grande mecenas, de um apoio que não fosse apenas institucional, mas que partisse também das pessoas que mantêm as chaves dos cofres públicos. A home page de Ian Guest fica no endereço www.mariana.com.br/ianguest.


