Entre a tensão e a leveza
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2000
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Uma grande escultura em tecido ocupa o palco do Guairão. Esse é o cenário do show de Marisa Monte, Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, que está estreando nacionalmente em Curitiba. Hoje é o último dia. A obra de Ernesto Neto é uma síntese, em linhas, movimentos e formas do próprio espetáculo: se há tensão no pano em alguns pontos, noutros o que fica é a suavidade. O som tem disso, segundo a moça:
Dá para dizer que tem bastante batuque, é pesado o negócio. Mas tem um lado leve, muito leve. Há uma dinâmica interessante, o show como um todo tem intensidade e alívio.
Quem deixou para comprar os ingressos na última hora ficou a ver navios, ou teve de se render aos cambistas. Um dia antes da cantora subir ao palco, já não era possível encontrar um único bilhete à venda. De certa forma é uma resposta do público à escolha que a artista vem fazendo nos últimos anos de inaugurar as turnês nacionais de seus espetáculos entre os curitibanos. Um dos motivos, segundo ela, está na qualidade do Guairão.
Memórias, Crônicas e Declarações de Amor representa para Marisa um momento de consolidação de sua carreira. Os parceiros que a acompanham há anos, desde o empresário Leonardo Netto e a figurinista Kalma Murtinho, chegando aos produtores de seus discos, são a prova inconteste dessa estabilidade. Hoje em dia a gente tem mais domínio dos meios de produção, frisou. Com um detalhe: a cantora diz cercar-se de gente mais talentosa que eu em todas as suas áreas.
Uma nova banda está em cena: Davi Moraes (guitarra e violão), Marcelo Costa (bateria), Peu Meurrahy (percussão e voz), Marya Bravo (backing vocal), Dadi Carvalho (baixo), Mauro Diniz (cavaquinho, violão e vocais), Orlando Costa (percussão), Leonardo Reis (percussão) e Carlos Trilha (teclados e programações). A formação da cozinha mostra o tom do espetáculo, e Marisa confirma:
A gente está estendendo a idéia do show às experiências da percussão feitas no disco, que é a busca de uma sonoridade pop brasileira e de um conceito de bateria.
Esse é o dado principal de Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, conforme frisou a artista. Mas, além disso, há outro traço marcante que é a pessoalidade do seu trabalho. Este último não é mais pessoal que os anteriores. Tudo é muito consequência da minha vida, das coisas que vivo, que vejo, que faço, das informações que consumo. Acho que também é uma reação natural à massificação e globalização do indivíduo.
Com um livro de James Joyce na mochila, Retrato de um Artista Quando Jovem, Marisa Monte não aceita que pensem que as declarações de amor do título do disco e do show sejam dedicadas a um único escolhido. Estou amando muitas pessoas; acho restrito amar apenas a um. E sobre qual de suas músicas ela encerraria numa cápsula, para atravessar os tempos, a moça respondeu ao autor da pergunta, com outra pergunta: Você tem filhos? Então escolhe um filho seu para botar numa cápsula e guardar para o futuro.
Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, show com Marisa Monte. No Guairão, hoje, às 19 horas. Ingressos esgotados.


